quarta-feira, 9 de maio de 2018

“Negra não é a minha profissão”: actrizes francesas lançam em Cannes livro sobre racismo



“Não pode fazer esse papel, ela é advogada”; “felizmente tem feições finas”. Dezasseis actrizes de diferentes idades denunciam racismo latente do cinema francês num festival onde também o realizador de Black Panther falará sobre a representação dos negros no cinema.


JOANA AMARAL CARDOSO   JORNALISTA

“Fala africano?”; “felizmente tem feições finas”; “você não é suficientemente africana para ser africana”; “não pode fazer esse papel, ela é advogada”. Estas são algumas das coisas que dizem às actrizes negras e que disseram a Nadège Beausson-Diagne em castings em França e fazem parte do livro Noire n'est pas mon métier (“Negra não é a minha profissão”), que 16 actrizes francesas vão lançar oficialmente dia 16 em pleno Festival de Cannes para mostrar que “o imaginário das produções francesas ainda está cheio de clichés herdados de outros tempos”, segundo a actriz Aissa Maiga.

O livro já está nas livrarias francesas, editado pela Éditions du Seuil, e conta com testemunhos de mulheres de sucesso nos palcos e ecrãs franceses como Sonia Rolland (ex-Miss França), Eye Haïdara, Firmine Richard, Karidja Touré ou Assa Sylla, com idades entre os 21 e os 70 anos. Citada pela agência AFP, Maiga, já nomeada para um César (os prémios máximos do cinema francês), reconheceu que, embora “as coisas evoluam”, a mudança acontece “lentamente” – no fundo, defende, há “uma esclerose”; ter uma carreira sendo actriz negra é “um milagre”.

Desejam uma “representação mais justa” da sua identidade, da sua cor de pele, não focada em estereótipos ou, como resume a agência a partir da obra, que não as escolham sobretudo para papéis de empregadas da limpeza, prostitutas ou delinquentes de bairros pobres. Ou enfermeiras e nunca médicas. O objectivo é, como disse Aissa Maiga ao Libèration, “denunciar um sistema que perdura há demasiado tempo”.

“A nossa presença nos filmes franceses ainda é muitas vezes devida à necessidade incontornável ou anedótica de ter uma personagem negra”, queixa-se Maiga, estrela do filme Bamako (2006). O racismo quotidiano e corriqueiro leva-as, dizem e escrevem, a ouvir coisas como “felizmente tem traços finos e não é negróide, não é demasiado negra” ou “para uma negra, é muito inteligente”, como denunciou Nadege Beausson-Diagne, parte de um dos maiores êxitos de bilheteira francês, Bienvenue chez les Ch'tis (2008).


As autoras pedem mudança e não só formas de castingmais equilibradas e menos estereotipadas, mas também histórias com mais diversidade. Não nomeiam os autores das declarações ou escolhas que consideram menos diversificadas, mas consideraram na apresentação do livro que “o espírito do tempo” e do momento MeToo lhes deram um novo enquadramento. Antes deste movimento que tem ainda escassos meses, em 2015 o mesmo espírito esteve na origem do blogue "Shit People Say to Women Directors", que denuncia os comentários e o tratamento discriminatório sobre mulheres nos bastidores do cinema e da televisão.

O tema sobre a representação dos negros na indústria do cinema será o cerne de uma masterclass do realizador Ryan Coogler (autor de Creed, Fruitvale Station e Black Panther) na quinta-feira, dia 10, também em Cannes.

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