quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

No ano #MeToo houve menos actrizes protagonistas em Hollywood


Número de filmes protagonizados por mulheres caiu para os 24% em 2017. “Temos de separar a hipérbole da realidade”, diz autora do estudo sobre um ano de activismo que não foi uma maravilha no plateau.
22 de Fevereiro de 2018,

Mulher-Maravilha

Parece ter sido um ano de afirmação feminina em Hollywood, mas no cinema e na prática não foi. 2017, o ano de Mulher-Maravilha e da pujança #MeToo foi também o ano em que apenas 24% dos cem filmes mais rentáveis dos EUA foram protagonizados por actrizes. Foram menos 5% do que em 2016, uma quebra na representação no ano em que os três filmes mais rentáveis tiveram mulheres no papel principal.

Mas nem com a ajuda de Star Wars, A Bela e o Monstro ou uma super-heroína que pela primeira vez deu azo a um filme e se entregou a uma realizadora, Patty Jenkins, as estatísticas melhoraram para as actrizes na mais importante e mediática indústria cinematográfica do mundo. It’s a Man’s (Celluloid)World: Portrayals of Female Characters in the Top 100 Films of 2017 é o estudo anual do Center for the Study of Women in Television and Film da San Diego State University, que em 2016 tinha até celebrado a presença de mais mulheres no cinema americano.

Os números de um 2017 pleno de histórias sobre as mulheres em Hollywood - algumas triunfantes como foi o caso dos filmes mais rentáveis do ano, outras tristes e impulsionadoras de uma tentativa de mudança como foi o caso Weinstein e o decorrente momento #MeToo – são contrastantes. “Na temporada de prémios quando a conversa sobre mulheres e género tem estado bem presente, temos de separar a hipérbole da realidade”, diz Martha F. Lauzen, coordenadora do estudo. Citada pela imprensa norte-americana, lembra que “os números ainda não reflectem uma mudança sísmica ou maciça na indústria cinematográfica”.

Um resumo do estudo coordenado por Martha F. Lauzen: no ano passado, só 37% das personagens de maior relevo nos filmes americanos eram mulheres; dos papéis com falas, só 34% eram de mulheres; pela positiva: houve um aumento do número de papéis para actrizes negras, latinas e asiáticas, sendo as latinas as que evoluíram melhor (de 3% em 2016 para 7% em 2017). Quando o estudo concluiu que só 24% dos filmes mais vistos tinham mulheres a protagonizar, mostrou também que 58% dos filmes tinham homens como estrelas e 18% eram filmes de elenco.

É no cinema independente como o de Lady Bird, por exemplo, que as protagonistas tendem a ser mais frequentes (65%), embora tenham sido os blockbusters ou filmes dos grandes estúdios (35%) como Os Últimos Jedi, A Bela e o Monstro e Mulher-Maravilha que mais geraram discussão sobre um filme cuja história é contada pela perspectiva de uma mulher. O diferimento de idades entre estrelas masculinas e femininas continua também, com a maior parte das personagens femininas a ter entre 20 (32%) e 30 anos (25%). Os homens têm sobretudo entre 30 (31%) e 40 anos (27%); há muitas mais personagens masculinas com mais de 40 anos no cinema (46%) do que personagens de mulheres acima dos 40 (29%).

As mesmas proporções encontram-se quando se analisa que tipo de foco tem a personagem em questão: os homens são mais apresentados como focados no trabalho e as mulheres com mais foco nas suas vidas pessoais. E as mesmas conclusões repetem-se ano após ano: “Em filmes com pelo menos uma mulher realizadora e/ou argumentista, as mulheres constituíram 45% dos protagonistas. Em filmes exclusivamente com realizadores homens e/ou guionistas masculinos, as mulheres tinham 20% dos papéis de protagonista”.

Mulheres em Hollywood: elas falam, falam, falam, mas os números não mudam nada

Novo estudo sobre as oportunidades de trabalho dadas às mulheres no cinema mostra novo recuo do número de realizadoras ou produtoras nos filmes mais rentáveis de 2016.
JOANA AMARAL CARDOSO
16 de Janeiro de 2017

Julia Roberts em Money Monster, de Jodie Foster e com George Clooney

Elas falam, falam, falam, mas os números afinal não mudam nada. Depois de, em 2015, o panorama de empregabilidade das realizadoras e de outras profissionais atrás das câmaras em Hollywood ter dado sinais de ligeiras melhoras, em 2016, e apesar das intervenções públicas de actores e realizadores e do início de uma investigação à discriminação de género no sector, os números voltaram a cair. Só 7% dos 250 filmes mais rentáveis do ano foram dirigidos por uma mulher.

O estudo Celluloid Ceiling do Center for the Study of Women in Television and Film (CSWTF) da Universidade de San Diego volta a fazer as contas às mulheres que trabalham nos principais filmes da maior indústria do sector no mundo e desta vez deixou a sua coordenadora “perplexa”. Porque apesar de tudo o que foi dito sobre a situação das mulheres em Hollywood nos últimos anos, de cartas abertas sobre ordenados a declarações inflamadas nos Óscares passando pela criação de “campos de treino” para realizadoras, os números caíram. “As panaceias actuais claramente não estão a resultar”, disse Martha Lauzen à Variety.

Sendo esta a 19.ª edição do estudo, amplamente citado todos os anos, as suas conclusões fazem a revista especializada Hollywood Reporter decretar que “as oportunidades para as mulheres que trabalham nos principais postos atrás das câmaras não melhoraram nos últimos 20 anos”. Quanto a outros trabalhos, o cenário mantém-se minoritário, com apenas 24% de produtoras (outra quebra de 2% em relação a 2015 a juntar-se ao número de realizadoras), só 4% dos filmes tiveram uma mulher no cargo de directora de fotografia e houve menos 5% de mulheres nas mesas de edição e montagem (de um total de 17%).

“Durante 25 anos fui a única mulher nas filmagens”, disse no sábado a actriz Reese Witherspoon, numa apresentação da sua nova série, Big Little Lies (que se estreia a 19 de Fevereiro no TVSéries), da qual é produtora executiva com Nicole Kidman. “Temos de começar a ver as mulheres no cinema como são verdadeiramente”, disse Witherspoon, citada pela Hollywood Reporter – está “farta” de ver constantemente o talento de grandes actrizes empregue apenas a “interpretar esposas e namoradas”.

Este é o campo das actrizes, que com a dimensão de estrela de Witherspoon ou Kidman se dedicam também à produção (neste caso na TV) e que confirmam uma de várias tendências desde que se estuda a presença de mulheres no sector do cinema em várias partes do mundo: quanto mais mulheres no cargo de realizador ou produtor, chefias portanto, mais as histórias tendem a reflectir a diversidade e os projectos a empregar mais trabalhadoras em várias áreas. Outras tendências são confirmadas pelo estudo do CSWTF, como a de que há mais emprego feminino nos documentários e menos nos filmes de acção, por exemplo.

Nos 250 filmes estreados nos EUA e que mais dinheiro fizeram em 2016, 13% tiveram argumentistas mulheres (mais 2% do que em 2015), número que nunca ultrapassa o ano em que o estudo começou e tudo era ligeiramente melhor – 1998. No estudo Celluloid Ceiling indica-se ainda que as realizadoras Jodie Foster e Patricia Riggen fizeram os filmes mais rentáveis feitos por mulheres, Money Monster e O Nosso Milagre, respectivamente.

“As mulheres a trabalhar em papéis-chave atrás das câmaras ainda não estão a beneficiar do diálogo actual sobre a diversidade e a inclusão na indústria do cinema”, diz Lauzen, referindo-se não só às intervenções públicas sobre o tema mas também à investigação em curso da Equal Employment Opportunity Commission dos EUA sobre o sector. Em 2017, estão previstos mais filmes realizados por mulheres, nomeadamente os novos projectos de Sofia Coppola, Kathryn Bigelow ou Patty Jenkins.

No mesmo dia em que foi apresentado o estudo, era lançada uma nova série de TV, Feud, para o canal FX, em que Susan Sarandon e Jessica Lange interpretam Joan Crawford e Bette Davis, mas sobretudo reflectem sobre “o que Hollywood faz às mulheres à medida que envelhecem”, como disse Lange – mais um sinal de que também nos temas do entretenimento americano se foi imiscuindo a questão da igualdade de género.

Metade dos realizadores de Feud são mulheres e 15 dos papéis são para actrizes com mais de 40 anos, “uma das grandes alegrias” do seu criador, Ryan Murphy. Na televisão, as produções de Murphy são citadas frequentemente como exemplos de paridade, contrariando os dados também do CSWTF que mostram que apenas 26% dos criadores, realizadores, argumentistas, produtores ou montadores são mulheres na indústria televisiva de 2016.

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