sexta-feira, 3 de novembro de 2017

ASSÉDIO SEXUAL



Vários membros de House of Cards denunciam comportamento "predador" de Kevin Spacey
À CNN, oito actuais e antigos membros da equipa de produção da série relatam um padrão de assédio sexual de Kevin Spacey que, dizem, tornou o ambiente de trabalho tóxico, principalmente para jovens.


PÚBLICO

Depois de Anthony Rapp, oito membros da equipa de produção da série House of Cards denunciaram o comportamento “predador” de Kevin Spacey, incluindo contacto físico não consentido e comentários grosseiros normalmente dirigidos a jovens do sexo masculino.
A primeira denúncia contra Spacey veio a público no domingo, quando o actor Anthony Rapp acusou a estrela de House of Cards de o ter assediado aos 14 anos.O actor emitiu um pedido “sincero” de desculpas, assumindo também que escolheu “viver como um homem gay”. Dois dias depois, a Netflix e a Media Rights Capital decidiram suspender a produção da sexta (e última) temporada da popular série de bastidores da política americana.

Já nesta quinta-feira, os representantes de Spacey revelaram que o actor vai procurar tratamento. "Kevin Spacey vai tirar o tempo necessário para procurar uma avaliação e tratamento", afirmou Staci Wolfe, agente do actor.

Agora, a CNN revela os relatos de oito membros da série que acusam Spacey de assédio sexual - os denunciantes solicitaram o anonimato por receio de represálias profissionais.

Um antigo assistente de produção da série de sucesso da Netflix disse ao canal norte-americano que Spacey o assediou, durante uma viagem para o local das filmagens. A minutos de distância dos estúdios, Spacey, que estava a conduzir, colocou a mão nas calças do assistente, relata, garantindo que o contacto não foi consentido.

“Eu estava em estado de choque”, disse. “Ele era um homem numa posição muito poderosa na série”, acrescenta. O assistente de produção recusou relatar o que se passou depois, por recear que isso o identifique.

Mas conta que depois de chegados ao local de filmagens, ajudou Spacey a retirar os seus pertences do carro para a roulotte reservada ao actor. Quando aí chegaram, Spacey bloqueou a sua saída e fez contactos impróprios.

“Eu disse-lhe: ‘Eu penso que não estou de acordo com isto, penso que não estou confortável com isto’”, relatou. Foi nesta altura que Spacey se mostrou “visivelmente nervoso”, tendo regressado ao carro. O actor deixou o local de filmagens e não apareceu durante todo o dia, segundo o relato obtido pela CNN.

Este assistente de produção não relatou o incidente nem aos funcionários de topo da produção nem às autoridades mas contou o que se passou a um colega, que confirmou o caso à CNN.

Outras pessoas que trabalharam na produção da série que Spacey protagoniza e da qual é também um dos produtores executivos dizem ao canal que o ambiente poderia ser tóxico para jovens por causa do comportamento de Kevin Spacey. Um deles disse que o actor o assediou e lhe tocou de forma “estranha” repetidamente, incluindo massagens nos ombros.

“A Netflix apenas soube de um incidente, há cinco anos, de que fomos informados e que foi rapidamente resolvido”, disse a empresa em resposta à CNN. “A Netflix não tem conhecimento de qualquer outro incidente envolvendo Kevin Spacey em estúdio”, acrescenta.

A Media Rights Capital, por sua vez, revelou que criou uma “linha anónima de queixas, conselheiros de crise, e consultores legais de assédio para a equipa”.

Várias outras pessoas relataram este tipo de comportamento de Spacey, incluindo um assistente de câmara, que nunca foi assediado, mas que assistiu a um incidente do género com o actor que “toda a gente viu”. “Todos os membros da equipa comentaram o comportamento dele”, refere.



Efeito Weinstein: Kevin Spacey pede desculpas por assédio e revela homossexualidade
Catalisador de denúncias de comportamento sexual indesejado chegou a Westminster ou ao Parlamento Europeu, e leva ao coming out de um actor de renome.


Anthony Rapp,


O actor Anthony Rapp, actualmente a trabalhar na série Star Trek: Discovery e um dos elementos do musical Rent, acusou Kevin Spacey de assédio e de o tentar seduzir quando tinha 14 anos. O pedido “sincero” de desculpas de Spacey, um dos mais conhecidos actores da sua geração, veio acompanhado da revelação de que escolhe “viver como um homem gay”. O efeito catalisador do caso Harvey Weinstein, que continua a crescer, gerou denúncias de comportamento sexual indesejado por parte de figuras em posição de poder a vários níveis — esta segunda-feira mais de 150 artistas, curadores e directores de museus denunciaram abusos no mundo das artes e no fim-de-semana dois políticos britânicos foram também acusados.

No domingo, o site Buzzfeed publicou a notícia de que Rapp, hoje com 46 anos, se queixa de uma noite de assédio por parte de Kevin Spacey, respeitado actor do teatro, cinema e televisão, onde há cinco anos interpreta o protagonista do drama político House of Cards. Ambos estavam a trabalhar na Broadway, em duas peças diferentes, e numa festa na casa de Spacey o jovem de 14 anos deu por si no quarto do anfitrião, já com a casa vazia. “A minha impressão quando entrou no quarto foi de que estava bêbado”, diz Rapp. Spacey, então com 26 anos, ter-se-á deitado sobre Rapp e usado alguma força para o manter naquela posição. “Estava a tentar seduzir-me”, relata, acrescentando que conseguiu passar para a casa de banho e anunciou depois ter-se ido embora do apartamento.

Sente-se sortudo por nada mais ter acontecido, mas ao mesmo tempo incrédulo e zangado por ter sido posto em tal situação. Decidiu contar a sua história por mais motivos do que queixar-se, disse ao Buzzfeed — “mas para tentar iluminar décadas de comportamento que se tem permitido que continue porque muitas pessoas, incluindo eu, permanecem em silêncio”. O “momento que vivemos” fê-lo sentir que podia pôr um nome numa história que já tinha contado no passado — mais precisamente à revista The Advocate, em 2001, em que não identificava o homem que o assediou enquanto adolescente. Algumas alegadas vítimas de outros casos, agora vindos a público, tinham feito o mesmo, contando as suas histórias mas sem nomear o suposto agressor.

Kevin Spacey reagiu via Twitter com a publicação de uma nota em que manifesta a sua “admiração” por Rapp enquanto actor e diz: “Estou mais do que horrorizado por ouvir esta história. Honestamente, não me lembro do encontro, terá sido há mais de 30 anos. Mas se me comportei como ele descreve, devo-lhe as desculpas mais sinceras por o que teria sido um comportamento bêbado profundamente inapropriado”.

Numa segunda parte da nota, um efeito colateral da acusação de que é alvo — Spacey diz que a história o fez querer lidar com “outras coisas” na sua vida e acrescenta que sabe que “há histórias” sobre ele, justificando que tem protegido a sua privacidade. “Na minha vida tenho tido relações com homens e mulheres. Amei e tive encontros românticos com homens ao longo da minha vida e hoje escolho viver como um homem gay. Quero lidar com isto com honestidade, e abertamente, e isso começa por examinar o meu próprio comportamento”.

Kevin Spacey tem 58 anos e, tal como escreve na sua mensagem de domingo, tem defendido o seu direito à privacidade no que toca à sua vida íntima ao mesmo tempo que, nos bastidores e em alguns media, tem também sido alvo de rumores e especulação quanto a ela. Rapp interpreta actualmente um cientista que é a primeira personagem abertamente gay no universo Star Trek.

MeToo em Westminster e no Parlamento Europeu
Três semanas depois do início do escândalo Weinstein, alimentado por duas investigações jornalísticas em que pela primeira vez actrizes de renome falaram na primeira pessoa sobre casos de assédio sexual de diferentes graus de gravidade alegadamente perpetrados por um homem que tinha poderio físico e profissional sobre elas, as réplicas do mesmo continuam a fazer-se sentir em vários sectores e países.

Em parte produto de um momento em que uma atmosfera de responsabilização e de não-culpabilização das alegadas vítimas parece favorecer o número crescente de histórias a vir a público, como vários envolvidos têm contextualizado, extravazou já os limites do entretenimento. Na semana passada o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre a luta contra o assédio sexual e os abusos sexuais na União Europeia — que muitos vêm como tendo sido motivado pela adesão ao movimento online MeToo, destinado a partilhar testemunhos de assédio, por várias eurodeputadas, e por uma investigação do site Politico.

Este fim-de-semana, duas denúncias de alegados comportamento sexuais inapropriados por parte de um deputado e de um ex-governante britânicos (do Partido Conservador) motivaram a primeira-ministra Theresa May a pedir a criação de um serviço independente que medeie o processo e indicou que podem ser criadas novas regras de conduta. O Guardian escreve esta manhã que esta semana se poderá revelar “o verdadeiro alcance do assédio sexual em Westminster”.

Um abaixo-assinado que continua a acumular signatários e que tem como promotores nomes como o da fotógrafa norte-americana Cindy Sherman ou da britânica Suzanne Cotter, ainda directora do Museu de Serralves, no Porto, denuncia esta segunda-feira as práticas de assédio sexual no mundo das artes.

Kevin Spacey

Nos últimos dias novas queixas foram feitas contra agentes de talentos — o agente Tyler Grasham está a ser investigado por agressão sexual pela Polícia de Los Angeles — ou dirigentes de estúdios — Andrew Kramer, da Lionsgate, saiu da empresa após uma denúncia de assédio. O realizador James Toback foi acusado há uma semana por mais de 30 mulheres de assédio sexual e violação, através de denúncias feitas ao Los Angeles Times que, segundo o diário, suscitaram mais de 200 outras queixas e fizeram as actrizes Selma Blair, Julianne Moore e Rachel McAdams contar as suas próprias histórias de agressão por parte de Tobback, que por vezes prometia papéis em troca de sexo. Este nega as alegações e em declarações agora reveladas pela Rolling Stone considera-as “nojentas”. “É a forma oposta de eu trabalhar”, reiterou, “trabalho de forma séria com total integridade".

No final da semana passada, a actriz Annabella Sciorra contou à New Yorker, num novo artigo do jornalista Ronan Farrow (filho de Mia Farrow e acusador dos alegados abusos por Woody Allen à sua filha adoptiva Dylan Farrow), ter sido violada por Harvey Weinstein e posteriormente perseguida e assediada pelo produtor. A sua história remonta ao início dos anos 1990 — em 1993 filmou para a Miramax, a produtora e distribuidora dos irmãos Weinstein —, quando este forçou a entrada no seu apartamento após um jantar de trabalho e a obrigou a ter relações sexuais violentamente.

“Como muitas destas mulheres, tive tanta vergonha do que aconteceu. E eu lutei. Lutei. Mas ainda assim estava ‘Por que é que abri aquela porta? Quem é que abre a porta àquela hora da noite?’. Senti-me nojenta. Senti que tinha feito merda.” Weinstein terá tentado repetir o sucedido anos mais tarde, aparecendo-lhe à porta em roupa interior e com um frasco de óleo para bebé, mas a actriz terá chamado o pessoal do hotel. Mais de 60 mulheres acusam o produtor de assédio, agressão sexual ou violação cometidos alegadamente ao longo de décadas. Algumas forças policiais estão a investigar as acusações e a sua empresa, de onde foi demitido e onde terá também assediado várias funcionárias, encontra-se em tumulto financeiro. Dia 5, o New York Times publicou a sua primeira investigação sobre o tema, seguida pela New Yorker, dia 10.

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