domingo, 10 de setembro de 2017

Os monstros de Guillermo del Toro vencem o Leão de Ouro de Veneza


Ficção científica e fantástico-poético: assim é The Shape of Water, parábola sobre a América e a discriminação "do outro". Na cerimónia final da 74 edição, foi tocante ver Charlotte Rampling, a melhor actriz, comovida aos 71 anos com este "regresso" a Itália, o país onde tudo começou para ela
VASCO CÂMARA em Veneza 9 de setembro de 2017

O Leão de Ouro de Veneza para os monstros de Guillermo del Toro, para um “filme de género” — são vários, fantástico-ficção científica, ainda toque de thriller e maionese poética a cobrir. Isto significa que “é possível”, disse Guillermo del Toro, o realizador de The Shape of Water, no início da noite deste sábado, no Lido. Foi o final da 74.ª edição do Festival de Veneza. Guillermo diz esperar que o prémio incentive jovens cineastas a terem fé naquilo em que acreditam, e no caso dele a fé são “os monstros”.

Não era preciso ver para crer. The Shape of Water estava na lista dos favoritos, era um dos que, do contingente americano, oscarizável e etc., que Veneza programou, tinha conseguido o entusiasmo de alguma imprensa — o outro era Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh, que se ficou por um prémio de argumento que, afinal, é mais adequado ao virtuosismo do filme, assente na escrita do realizador e dramaturgo britânico que começou o texto a pensar nos actores, Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell.

vitória de The Shape of Water é também a vitória de Alberto Barbera, o homem que manda no festival e que vem apostando na produção americana como estratégia para se impor aos outros grandes (Cannes e Berlim). Esta edição ainda teve a característica suplementar de esse contingente chegar com a forma de ficção científica, thriller, fantástico, horror, géneros que se diz serem menosprezados pelos festivais. Mas os filmes de Alexander Payne (Downsizing), George Clooney (Suburbicon) ou Darren Aronofsky (Mother!), para além do de Del Toro, traziam programa actual, falaram da América e fizeram militância contra Donald Trump. Uns de forma “clever”, outros ansiosos por agradar e alguns até a fazer a papinha ao espectador, a quem tratam de forma infantil.

É o caso de The Shape of Water, espécie de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain do fantástico-poético: história de amor entre uma empregada de limpeza muda num laboratório de segurança máxima (anos 60, Guerra Fria) e a criatura anfíbia que os americanos ali escondem dos russos e que representa os “outros” que o nosso mundo (não nos anos 60, hoje!) isola em nome de uma pureza qualquer. Tem os seus momentos de puro kitsch, o filme do cineasta mexicano, até canta e dança a preto e branco. E irá a caminho dos Óscares, como aconteceu a outros aplaudidos no Lido, e amigos de Del Toro, casos de Alfonso Cuarón (Gravity, em 2014) e Alejandro Iñárritu (Birdman, em 2015).

Foram os monstros de Guillermo, houve os fantasmas do israelita Samuel Maoz, que pela segunda vez tem prémio importante no Lido: em 2009, Leão de Ouro por Libano, agora, com Foxtrot, o Grande Prémio do Júri. No anterior, a guerra (a primeira guerra do Líbano, em 1982, a partir de uma experiencia autobiográfica), neste o estado de guerra: é um filme sobre a intimidade de quem habita a violência de um país em conflito. O filme dança, manipula a realidade como sonho, e o sonho como realidade, quer fazer o espectador “sentir”. A complicada convivência entre a sinceridade da catarse e a manipulação artificiosa, eis a ginástica para o espectador de Foxtrot.

Um dos grandes momentos da noite foi o de Charlotte Rampling, prémio de interpretação por Hannah, do italiano Andrea Pallaoro. Charlotte tem 71 anos e o prémio em Itália tem para ela uma dimensão emocional enorme, disse — e viu-se. É um retorno. Foi em Itália, onde chegou aos 22 anos, que tudo realmente começou para ela, quando trabalhou com Visconti (Os Malditos) ou com Liliana Cavani (O Porteiro da Noite).

O melhor filme do palmarés é o que leva o Leão de Prata para o Melhor Realizador: Xavier Legrand, por Jusqu’à la Garde (que também recebeu o prémio para a melhor primeira obra, atribuído por um outro júri, por isso é mesmo a revelação desta edição). Um dos últimos títulos apresentados, é uma história de violência doméstica que dá um salto sobre o “tema”, afasta o filme social e aterra no thriller. Um filme sobre a família como espaço de violência: os planos e as personagens a comunicar entre si com a tremenda secura dos estilhaços.
Palmarés da 74.ª edição
Leão de Ouro: The Shape of Water, de Guillermo del Toro
Leão de Prata, Melhor Realizador: Xavier Legrand, Jusqu’à la Garde
Grande Prémio do Júri: Foxtrot, de Samuel Maoz
Taça Volpi, Melhor Actor: Kamel El Basha, por The Insult, de Ziad Doueiri
Taça Volpi, Melhor Actriz: Charlotte Rampling, Hannah, Andrea Pallaoro
Prémio Especial do Júri: Sweet Country, de Warwick Thornton
Osella de Ouro, para a Melhor Contribuição Técnica: não atribuído
Osella de Ouro para o Melhor Argumento: Martin McDonagh por Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Prémio Marcello Mastroianni para um actor ou actriz emergente: Charlie Plummer, por Lean on Pete, de Andrew Haigh

O júri, presidido pela actriz Annette Bening, integrou a cineasta e argumentista húngara Ildikó Enyedi, o realizador Michel Franco, as actrizes Rebecca Hall, Jasmine Trinca e Anna Mouglalis e o realizador e argumentista Edgar Wright.

O prémio Luigi de Laurentiis para a melhor primeira obra, escolha de um júri específico, foi atribuído a Jusqu’à la Garde, de Xavier Legrand. A secção Horizontes escolheu, como melhor filme, Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli.

Dez filmes para não esquecer Veneza

A América de Donald Trump foi um espectáculo decisivo da competição do Festival de Cinema de Veneza. Os grandes filmes, o de Kechiche, o de Schrader, estiveram ao lado. Sobre os prémios, o júri de Annette Bening decide este sábado à noite.
VASCO CÂMARA em Veneza 9 de setembro de 2017



Mektoub, My Love

Abdellatif Kechiche
(concurso)

Polémica pronta a consumir, eis o que se espera para a temporada. É um “macho”, um realizador que “objectifica” as mulheres? O “escândalo” é Kechiche não ter medo de si próprio – isso também fez de Mektoub, My Love o melhor filme da competição. Eis o que nos espera: êxtase, saciedade e saturação, sequências de caça à luz e à carne. Verão de 1994, Amin, fotógrafo, vem da cinzenta Paris até ao Mediterrâneo à procura das cores. Sexo e comida, discoteca e ventura bucólica, convivência de classes, raparigas e rapazes: o último sinal do século XX, segundo o realizador.



First Reformed

Paul Schrader
(concurso)

Ethan Hawke, reverendo silencioso, grácil e assustador, veste colete de explosivos. O filme ameaça com o thriller – e toda a gente se lembrou do Taxi Driver, que Schrader escreveu para Scorsese. Mas tudo se passa na intimidade da fé, das palavras, dos diálogos, das dúvidas. A fé é experiência física também. E a harmonia dos corpos e gestos no espaço, a compostura, é das coisas mais vigorosas de First Reformed. Podia ser um thriller, é uma liturgia.



Jim & Andy: The Great Beyond. The Story of Jim Carrey & Andy Kaufman with a very special, contractually obligated mention of Tony Clifton

Chris Smith
(fora de concurso)

Quando Jim Carrey desapareceu, na rodagem de Homem na Lua, de Milos Forman, e foi ocupado pelo comediante Andy Kaufman (1949-1984). O cinema é um espaço de euforia psicótica, convida aos desdobramentos. Este é o making of disso, com imagens que tem vinte anos e que ninguém sabia o que fazer com elas. É, sobretudo, um intenso retrato de actor – que diz ter chegado à beatitude do nada, depois de ter descarnado todas as camadas da sua identidade.



Angels Wear White

Vivian Qu
(concurso)

Vivian Qu sente-se responsável por um ponto de vista sobre a China contemporânea, território devassado. Coloca-se do lado de Mia, uma adolescente que tem de fazer pela vida numa cidade de praia que se construiu na diluição de fronteiras entre moralidade e imoralidade (como num western em que todos abdicaram de uma parte da sua humanidade). Um filme delicado sobre a humilhação e a brutalidade.


The Taste of Rice Flower

Pengfei
(Giornate degli Autori)

Com elegante ironia, o argumentista de Stray Dogs, de Tsai Ming-liang, faz o burlesco aparecer no horizonte e organiza miniaturas e a seguir desequilibra-as. É o bailado do progresso, a sua desordem, num mundo rural e místico. Pengfei não escolhe campos. E isso é que alimenta um sentimento de irremediável. O filme adia sempre a redenção, nunca (se) resolvendo.



Nico, 1988

Susanna Nicchiarelli
(Horizontes)

Um fragmento da vida de Christa Päffgen, dita Nico (1938-1988), os últimos concertos, quando andou em tour pela Europa de Leste, com a sua anti-nostalgia perante o “mito” Velvet Underground, o desconforto perante as etiquetas de “musa” ou de femme fatale. E quando tentava recuperar a relação com o filho Ari. Que biopic ainda pode ser um biopic?Uma coisa assim: tal como Nico, que faça resistência aos clichés.



Jusqu'a la Garde

Xavier Legrand
(concurso)

Um filme sobre a violência doméstica que dá um salto sobre o “tema”, afasta o filme social, e aterra no thriller. Um filme sobre o medo, o medo das vítimas mas também o medo do agressor (Denis Ménochet interpreta um pai violento, que luta para manter a guarda dos filhos, e que é susceptível de desencadear ternura no espectador). Se a família é um espaço de violência, os planos e as personagens de Jusqu'a la Garde só podem comunicar entre si com a secura dos estilhaços.



Our souls at Night

Ritesh Batra
(fora de concurso)

O reencontro entre Jane Fonda e Robert Redford, quarto filme em 50 anos. Uma história de amor entre “maduros”? Sim. Mas Our Souls at Night, em vez de entrar a fundo nas convenções, recua passos e fica a olhar para Jane e Robert, para a forma como andam, os gestos, atento à mecânica e à fragilidade dos corpos. Em surdina, um documento com as últimas imagens juntas daquelas que foram presenças decisivas do cinema e da vida cultural, social e política da América.



Piazza Vittorio

Abel Ferrara
(fora de concurso)

Abel Ferrara é um imigrante: vive em Roma. Utiliza isso como elo para chegar aos imigrantes que tomaram conta de uma das mais icónicas praças da cidade – onde também vivem o actor americano Willem Dafoe e o cineasta italiano Matteo Garrone, que são participantes activos, com os africanos e os asiáticos nos mercados, nas lojas, nas ruas, de uma nova cidade. Ferrara não é jornalista, como diz. É cineasta. O seu olhar está encantado com as possibilidades de caos. Na falta do rigor da análise e da profundidade histórica, sobra o calor da empatia – que já é uma parte da verdade.


Ammore e Malavita

Antonio e Marco Manetti
(concurso)

O orgulho e a ironia por Nápoles, pelos seus clichés, a sua violência e misérias, pelo seu sangue, pela sua densidade. Rock, r&b e rap, canções de género azeiteiro: uma representação teatral popular, misto de canto e fala que exibe as emoções do amor, da honra, da traição, a que os irmãos Manetti dão forma de filme musical. Não é La La Land, é melhor do que La La Land. Até os mortos cantam. Depois de Caro Diario, de Moretti, assim se confirma que Flashdance tem importância fundadora para o cinema italiano....

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