sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Um raio de um filme: não dá nada, tira tudo

Nunca um happy end se pareceu tanto com um funeral. À Sombra das Mulheres é um raio de um filme: não dá nada, tira tudo.
LUÍS MIGUEL OLIVEIRA 30 de Março de 2016

Apesar da tradicional fotografia a preto e branco – um gélido e soberbo preto e branco, cortesia de Renato Berta – que ninguém se iluda: À Sombra das Mulheres não é “o Garrel do costume”. Enfim, o “Garrel do costume” não existe, temo-lo na conta de um dos realizadores contemporâneos que mais vale a pena seguir, na teimosia e insistência com que, a cada filme, vem variando e revisitando quase sempre os mesmos temas. Mas se existisse, À Sombra das Mulheres não o seria, de todo; pelo contrário, é o mais estranho dos seus filmes em muito tempo, e uma obra que, repetindo um olhar sobre as relações amorosas e a “vida de casal” que tem sido o seu tema de eleição, dele evacua toda a carga romântica e/ou idealista tão presente num filme como A Fronteira da Alvorada e mesmo, de certo modo, no anterior Ciúme. Nenhum romantismo, só frieza e uma banalidade desconsolada – nem sequer há nenhuma tragédia em À Sombra das Mulheres, nenhum gesto de ruptura radical (como a tentativa de suicídio do protagonista de Ciúme), apenas a lentidão monótona de uma sucessão de boy meets girl / boy loses girl / boy finds girl (com, é certo, algumas variações a esta fórmula clássica) dada como uma rotina sentimental fechada sobre si mesma. É admirável que um cineasta de quase 70 anos (Garrel cumpre 68 este ano) chegue a esta idade com a capacidade de ter um olhar desoladíssimo sobre as relações humanas, sentimentais ou conjugais. Admirável e assustador: À Sombra das Mulheres é o contrário de um feel good movie, é um filme que não dá nada ao espectador (como, mesmo na tragédia, o caloroso romantismo dos últimos filmes dava), e pelo contrário lhe tira tudo. Ficam avisados.
É admirável e assustador que um cineasta chegue aos 70 anos com a capacidade de ter um olhar desoladíssimo sobre as relações humanas

O signo é o da miséria. Sentimental, mas que começa, logo na estranhíssima sequência de abertura, por ser balizada pela miséria material. Uma mulher que se arranja ao espelho depois do banho, o senhorio que entra sem aviso a ameaçar despeja-la se a casa continuar “naquele estado”. Entramos logo sob o signo da sujidade (que não vemos muito para além das palavras do senhorio) e da precariedade material. Esta abertura está lá só para nos dizer isto: estas pessoas vivem mal. Pudera, vivem do cinema: essa personagem (Clotilde Courau) é a protagonista feminina, que partilha a vida com um realizador de documentários (Stanislas Merhar, que conhecemos dos filmes de Chantal Akerman ou Jean-Claude Brisseau), documentários esses que nada nos garante sequer serem bons, visto que apesar das tentativas ainda nenhuma forma de sucesso chegou àquele casal. Trabalham agora num documentário sobre um velho membro da Resistência durante a II Guerra – maneira de evocar, até em imagens de arquivo, essa velha aflição de Garrel, o desaparecimento da memória directa do Nazismo (“o Holocausto estará pronto a repetir-se quando morrer o último sobrevivente de Auschwitz”, como se dizia em A Fronteira da Alvorada). Não será inocente a escolha do cinema como modo de vida das personagens, mas em todo o caso Garrel não tem aqui muito a dizer sobre o cinema para além de usar esse modo de vida como câmara de ressonância da miséria das personagens.


Depois de uma primeira parte que nos apresenta as personagens e a sua situação vem o primeiro twist. Ele arranja uma amante, uma rapariga que encontra num arquivo de filmes (e que vimos depois a saber ser uma universitária sub-empregada, mais um detalhe de “realismo social” contemporâneo). E é então, no vai vem das cenas dele ora com a mulher ora com a amante, que o filme verdadeiramente arranca. E é, como diria a canção, só solidão: são sempre pares e há sempre alguém que está sozinho. Ele nunca ri, sempre de semblante triste e carregado, permanece tão neutro perante a mulher como perante a amante – percebemos a dada altura porque é que o filho Louis Garrel desta vez, a primeira em muitos filmes, não é protagonista e é remetido para a locução da voz off: Louis é demasiado amável, demasiado fácil de se gostar dele, o filme é outro com uma figura sequíssima e menos fotogénica como a de Stanislas Merhar. Mas elas também não são muito mais entusiasmantes, sem nenhuma beleza espampanante (não há nenhuma Nico, aqui), como se Garrel diluísse tudo e todos, os homens e as mulheres, numa vulgaridade sem brilho. Como brilho nenhum têm as casas e os quartos, com paredes que parecem cheias de humidade, e brilho nenhum tem as refeições solitárias que Garrel várias vezes filma, com alguém a comer qualquer coisa directamente duma lata ou coisa assim. Desconsolo total. Até a cena da separação que precede o último acto é assim, apenas o resultado de uma erosão ou de uma dissolução, relatada pela voz off com a casualidade de quem nota uma evidência irremediável.


E depois o reencontro: evitemos os pormenores (que não são muitos de qualquer modo) mas avisemos que nunca um happy end se pareceu tanto com um funeral ou, no mínimo, com uma condenação. Um raio de um filme: não dá absolutamente nada, tira tudo.

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