sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Os tempos que mudam

Uma obra-prima do melodrama de câmara que remete para um outro tempo do cinema americano: O Amor é uma Coisa Estranha.

JORGE MOURINHA 3 de Junho de 2016


Mais vale tarde do que nunca, costuma dizer-se, e se por vezes uma estreia com atraso é suficiente para “matar” um filme, o caso do glorioso melodrama do americano Ira Sachs que chega a Portugal dois anos depois é a excepção que confirma a regra.


Autenticamente “filme de câmara” no modo como nunca afasta o olhar das suas personagens e dos seus problemas, esta história de um casal com 40 anos de vida em comum, forçado a viver separado enquanto procura resolver os seus problemas financeiros e de habitação, é de uma delicadeza e de uma contenção a toda a prova. Não puxa à lágrima, não carrega no traço grosso, não acredita nos rodriguinhos nem na previsibilidade; fala de crescer, de envelhecer, de enfrentar os problemas que a vida vai atirando para a frente, dos tempos que mudam e do modo como vamos mudando, ou não, com eles. Talvez a melhor prova da sobriedade e da elegância com que Sachs nos emociona está na pontaria de ilustrar esta história de pessoas de carne e osso com peças de Chopin – o seu misto sereno de beleza, felicidade e melancolia é ideal para ilustrar este filme que remete indelevelmente para um outro tempo do cinema. Obra-prima, com todas as letras.


O centro de Love is Strange é bem definido, desde a sequência inicial em que vemos dois homens (John Lithgow e Alfred Molina, actores em estado de graça) a acordar na mesma cama: um casal gay, de uma certa idade, e uma espécie de último hurrah pela relação (o matrimónio finalmente permitido pela lei depois de 39 anos de vida em comum) antes de as sombras do crepúsculo se virem instalar, como de facto se instalarão. 


Mas a astúcia maior da construção de Love is Strange está na maneira como, sem nunca perder esse centro de vista, o lança no mundo, numa rede de personagens a que a câmara de Ira Sachs presta a mesma atenção, e numa nuvem de temas que está sempre a abrir o filme, a fazê-lo passar para outra coisa, como de resto os planos finais concretizarão – porque nessas imagens é, efectivamente, de uma “passagem” que se trata, de uma regeneração, de uma mudança de ponto de vista que equivale, se não a uma nova partida, a uma aceitação pacificada do fluxo da vida e dessa “coisa estranha” (mais do que só o “amor” do título) que é esta permanente coexistência de “fins” e de “princípios”.

A estrutura do filme funde-se, portanto, no trajecto do seu par protagonista. Casam-se no princípio do filme – os planos em que Lithgow e Molina, elegantes e meio trôpegos, avançam pelas ruas de Manhattan como um odd couple com o seu quê de burlesco, são o primeiro sinal de que há algo de especial no filme e no olhar de Ira Sachs – mas o que pensavam ser um corolário feliz para a sua longa relação revela-se um passaporte para o pequeno desastre. A personagem de Molina, um professor de música num colégio católico, é despedida, porque a direcção pode tolerar um professor homossexual mas não pode tolerar um professor casado com outro homem. 


Perdida essa fonte de rendimento, os dois homens deixam de poder sustentar a casa em que vivem e têm que a abandonar (as cenas com os bancos e as agências de imobiliário indiciam outro tema subjacente: a Manhattan caríssima da actualidade). Enquanto a situação não se resolve ficam a viver, separados, em casa de vizinhos e de familiares.


E a partir daqui, o filme passa também a ser sobre outras pessoas: sobretudo (e mais do que o caos “sempre em festa” dos vizinhos que acolhem Molina) a família do sobrinho de Lithgow, onde pontifica a sempre extraordinária Marisa Tomei e o seu filho adolescente, que está a viver uma potencial crise de crescimento e talvez mesmo (o que é dado com enorme subtileza e sem afirmação nenhuma) uma crise na definição da sua identidade sexual.


 Este retrato de estranheza (a coexistência com o tio e os seus modos um pouco insólitos) e intimidade (o que se passa naquela família, os não ditos, a ansiedade angustiada que transpira de todos os gestos e suspiros de Tomei) acaba por conquistar um espaço dentro do filme, de certa forma redefini-lo lentamente, reorientá-lo, passar do crepúsculo e dos “velhos” para os “novos” – é com o miúdo adolescente a patinar de skate no por do sol de Manhattan, ao som do muito Chopin que se ouve no filme, que Love is Strange se conclui, como se o seu ponto de vista fosse afinal o de uma espécie de testemunha, como se num filme sobre o fim (dado aliás numa elipse brilhante que também é uma maneira de recusar o dramatismo e ficar com o “fluxo”, com a aceitação) se escolhesse o que fica e o que continua, os que ficam e os que continuam.


Os actores, todos certíssimos nas mais pequenas nuances e nos mais pequenos gestos, são a força maior de Love is Strange, mas seria injusto resumir Ira Sachs a um “director de actores”. Há uma graça quase “impressionista” em certos planos de “intervalo” sobre aspectos de paisagem de Nova Iorque, como uma rima para as cenas em que Lithgow, a lembrar um Matisse que tivesse preferido Manhattan à Polinésia, vai para o terraço pintar. Há um sentido da presença física das personagens e da cidade, ou das personagens na cidade, como nos dois belos e longos planos (os últimos com a personagem de Lithgow), em que de ângulo muito aberto os vemos a caminhar pelas ruas de Greenwich Village (depois de, em modo semi-gag, já ter sido evocada a importância da Village na luta pelos direitos “gay”). É um filme perfeitamente dominado, que acerta em tudo o que tenta tocar, e vive numa justeza imaculada do princípio ao fim. Em tempos em que a bonecada é raínha do grande espectáculo, e em que o cinema indie vive de fórmulas e golpes para encher o olho, Love is Strange vê-se como uma lufada de ar fresco e o seu segredo é simples: mostra seres humanos em que podemos acreditar.

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