sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Os milagres de Hong Sang-Soo

Em Sítio Certo, História Errada nada passa pelas palavras, mas pelas circunstâncias, pela maneira como as emoções se reflectem. Essa adequação é milagrosa.

LUÍS MIGUEL OLIVEIRA  14 de Janeiro de 2016

Nascido em 1961, e com obra iniciada em 1996, é o mais destacado cineasta coreano da actualidade

Sítio Certo, História Errada, ou no título internacional Right Now, Wrong Then (que à letra se traduziria por Certo Agora, Errado Então), é apenas o terceiro título do coreano Hong Sang-Soo a estrear-se comercialmente em Portugal. Nascido em 1961, e com obra iniciada em 1996, é o mais destacado cineasta coreano da actualidade, pelo menos entre os que trabalham, “artesanalmente”, fora do pujante sistema industrial da Coreia contemporânea. “Artesanalmente”, no caso de Hong, não é força de expressão: os seus filmes tendem a ser cada vez mais minimalistas e mais simples em termos de condições de produção (mas não necessariamente na sua complexidade fílmica), e cada vez mais baratos. Sítio Certo, História Errada terá sido feito, contas confirmadas pelo realizador em entrevistas, com não mais do que o equivalente a cem mil dólares… Não é que não conseguisse filmar com mais dinheiro, nem que tenha feito uma profissão de fé na pobreza de meios, mas é de facto um cineasta que tende a avançar em “depuração”, numa progressiva libertação de constrangimentos e elementos supérfluos, para ficar tanto quanto possível, apenas com o desejo de cinema. Não foi o caso deste filme, ou não sabemos se terá sido, mas a propósito de um dos filmes anteriores Hong referiu que toda a gente – actores, técnicos e ele próprio – foi paga pelos valores mínimos previstos na tabela sindical coreana, não por um ideal de sovinice mas para que só ficasse mesmo quem quisesse ficar, e ficar pelo filme mais do que pelo dinheiro. Com tanta leveza na produção, Hong é também muito rápido: o seu filme anteriormente estreado em Portugal, Noutro País, com Isabelle Huppert (antes tinha estreado Noite e Dia), tem data de 2012 mas Sítio Certo, História Errada é a quarta longa-metragem que ele realizou depois desse título.

Tudo se pode passar através dos pequenos gestos, das frases ditas com maior ou menor hesitação

Quem viu Noutro País, e mesmo que não tenha visto mais nenhum filme de Hong, viu um bom exemplo dos procedimentos típicos do cineasta, em especial a sua predilecção por estruturas bem definidas (tão bem definidas que há quem lhe chame um cineasta “estruturalista”, o que não será válido da mesma maneira para todos os seus filmes), cheias de repetições e jogos de espelhos. Nesse caso, como se recordam os espectadores de Noutro País, tínhamos Isabelle Huppert a chegar, por três vezes, a uma cidade costeira coreana para três histórias que, sendo diferentes, continham imensas repetições e reflexos umas das outras. Em Sítio Certo, História Errada temos uma estrutura, à superfície, bastante parecida, com a mesma história a repetir-se duas vezes, na mesma sucessão de cenas e cenários, mas com a variação necessária (da luz ao comportamento das personagens) para que da segunda vez tudo corra um pouco melhor (e seja, portanto, “certo agora”).

À beira do truque

O princípio da história também é típico de Hong: o protagonista é um realizador de cinema (como tantas outras personagens de Hong, que se justifica dizendo simplesmente que as pessoas do cinema são uma espécie de gente que ele conhece bem) que chega à cidade de Suwon para estar presente na projecção de um filme seu (em Hahaha, de 2010, Hong faz uma divertidíssima caricatura dos festivais de cinema seguindo as desventuras de um jurado, sendo certo que praticamente todos os seus filmes começam com a chegada de alguém a um lugar estranho, são sempre peixes fora de água como a Huppert de Noutro País ou o coreano recém-chegado a Paris em Noite e Dia).


O realizador tem um dia para matar antes da sessão, e acaba por meter conversa com uma miúda, com quem passará o tempo em conversas em cafés, jantares ou sessões de bebida, sempre com a voz off dele a comentar acções e pensamentos (no que será o traço que mais legitimamente permite falar de um parentesco de Hong com o Rohmer dos contos morais). Isto duas vezes, a primeira “errada”, a segunda “certa”, e não vale a pena dar mais pormenores porque também Hong tem direito a ser poupado a spoilers, não são só os blockbusters.

Com esta estrutura tão marcada, tão à beira do truque, o milagre, habitual em Hong, é que nada no filme seja redutível a um “exercício”, a uma demonstração de esperteza mais ou menos saloia. Pelo contrário, apetece dizer que em Hong a estrutura liberta, e uma vez garantida a solidez do conjunto tudo se pode passar, no essencial, através dos pequenos gestos, das frases ditas com maior ou menor hesitação, ou através dessa matéria essencial que são os enquadramentos, a duração dos planos (Hong é um mestre do plano longo e um dos raros cineastas contemporâneos interessado em trabalhar o zoom, embora aqui o faça de forma menos exuberante do que noutras ocasiões), para tudo confluir numa espécie de “meteorologia”, em sentido próprio e em sentido figurado, a modular a relação que se estabelece entre as personagens – de certa forma é um filme que dá vontade de ver em loop, chegar ao fim e voltar ao princípio para melhor reparar (e apreciar) as pequenas diferenças entre uma parte e outra.

Hong tem referido que o ponto de partida dos seus filmes raramente é uma narrativa definida, antes o encontro com um lugar e com um punhado de actores (ainda antes de serem, ou terem, personagens). Começa frequentemente a filmar só com isto, e por vezes a estrutura só lhe aparece ao fim de alguns dias de rodagem, inspirada, ou espevitada, pelo material entretanto filmado. A partir daí pode tudo acontecer de forma surpreendentemente clássica, com argumento e diálogos escritos dia a dia, e cenas de uma mise en scène pensada com todo o rigor (como se depreende pela coerência e sofisticação da organização interna de algumas delas). Independentemente disso, ou justamente por causa disso, Hong é cada vez mais um “realizador de actores”, e o mais sedutor dos seus filmes é a justeza do seu “factor humano”, a fragilidade dos actores e das personagens, e ao mesmo tempo a determinação e a autenticidade que lhes arranca. Como se vê nas cenas de bebida, e há aqui uma crucial, longuíssima, que na primeira parte é onde a coisa começa a correr mal, que também são um ingrediente característico dos filmes de Hong (e frequentemente muito divertido, com implicações a vários níveis, levando o texto, os diálogos ou monólogos, para uma fronteira indefinida entre o que é para levar a sério e o que é mera conversa de bêbedo). Se os actores parecem super-autênticos no titubear ou na brusquidão de quem tem um grão na asa, é porque o costume é estarem mesmo a beber – tudo tem então, diz Hong, que se passar mais rapidamente: cenas de bebida têm que ficar “certas” em três takes (os actores não aguentam mais whisky ou sake do que isso), enquanto as cenas sóbrias podem levar mais tempo e ir aos quinze takes…


Finalmente: na sua intervenção depois da projecção do filme, respondendo a uma pergunta-cliché (“o que é para si o cinema”), a personagem do realizador embarca num monólogo progressivamente revoltado sobre a “insuficiência das palavras”. No fundo, embora a cena seja para rir por todos os motivos, é esse o tema de Sítio Certo, História Errada: aquilo que não passa pelas palavras, ou que não passa primordialmente pelas palavras, mas pelos modos, pelas circunstâncias, pela maneira como as emoções se reflectem ou não. O filme faz parecer essa adequação uma coisa milagrosa, e é por isso que, ao cabo de duas horas, aquele final – duas pessoas entenderem-se - nos parece exactamente isso, um milagre.

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