sábado, 24 de dezembro de 2016

O filme mais decorativo do ano

Cinema de berloques e ornamentos que não tem nada para investir em termos narrativos: Amor Eterno.
LUÍS MIGUEL OLIVEIRA 22 de Dezembro de 2016



A memória de há vinte anos conserva uma lembrança simpática do filme O Odor da Papaia Verde (bonito e com um toque de “herdeiro de Ozu”), que revelou o franco-vietnamita Tran Anh Hung.

Ou estávamos muito enganados então (o que é provável) ou Tran Anh Hung descompôs-se de maneira quase embaraçosa.


Movie CLIP

É que Amor Eterno, com a sua imaculada reconstituição de época(s) apoiada nas cores e iluminação, perfeitinhas e enjoativas, de Mark Lee Ping Bin, merecia o prémio de filme mais decorativo do ano, expressão de um cinema de berloques e ornamentos que não tem nada para investir em termos narrativos (ou outros), antes desbobina a sua história familiar transgeracional numa sucessão de quadrinhos muito beatos e muitos delicodoces, e se compraz na observação de algumas das actrizes mais desenxabidas do actual panorama francês (Audrey Tautou, Berenice Bejo, Irene Jacob…). São duas horas dum bocejo que parece, de facto, uma eternidade.


Os filmes são como caixas de bombons: nunca se sabe o que lá está dentro antes de as abrir, e Amor Eterno é um bom exemplo de uma caixa de bombons cujo recheio não é o esperado. Tínhamos perdido o rasto ao vietnamita radicado em França Tran Anh Hung, que conhecíamos de O Odor da Papaia Verde (Câmara de Ouro em Cannes 1993) e de Cyclo (Leão de Ouro em Veneza 1995); a sua bem-recebida adaptação do Norwegian Wood de Haruki Murakami (2010) ficara por estrear entre nós, e o seu último filme a estrear entre nós foi a malfadada experiência internacional com Josh Hartnett Eu Venho com a Chuva (2009).


Amor Eterno, o seu primeiro filme em seis anos, é um sumptuoso poema tonal Malickiano inspirado num romance de Alice Ferney que acompanha ao longo de várias décadas as mulheres de uma família da burguesia rural francesa. Luxuriantemente fotografado em tons de um panteísmo bucólico Renoiriano pelo grande Mark Lee Ping-Bing, é uma sucessão enlevada de tableaux vivants à volta do “eterno feminino” em modo de saga familiar de melancólica e delicada construção. 


Tem, de facto, muito de bombom da Mexicana que, em tempos, faria as delícias do público do Star ou do Londres: o recurso à música dos grandes românticos e dos impressionistas como Debussy ou Liszt, combinado com as panorâmicas em constante câmara lenta quase Ruizianas, corre o risco de criar um efeito de “Lelouch moderno”, de truque de prestidigitador místico a fingir-se de autor de cinema.


 É também por aí que as comparações Malickianas fazem algum sentido, embora Amor Eterno mantenha uma ligação mais tangível à cronologia convencional.


Mas Tran evita o trambolhão reduzindo ao mínimo a presença de diálogo no filme, e entregando a uma encantatória voz off feminina (da sua musa/esposa, Tran Nu Yen Khe) o transporte de uma narrativa reduzida a um ténue fio condutor, onde o elenco se resume a uma presença física com o seu quê de mero modelo Bressoniano. 


Mesmo que nada nele seja original, ou que as coisas resvalem a espaços para o delicodoce de caixa de bombons, é inegável que existe uma solidez e uma convicção, uma sinceridade e um cuidado, que tornam difícil descartá-lo ou emprestar-lhe um cinismo que claramente não possui — e só a preciosidade do trabalho de câmara de Mark Lee Ping Bing chega para justificar a vista de olhos.


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