sábado, 8 de outubro de 2016

Pauzinho na engrenagem

JORGE MOURINHA   06/10/2016

A partir de uma peça de Ibsen, Simon Stone estreia-se na longa com uma desmontagem das fachadas sociais e emocionais contemporâneas: A Filha.


A Filha: desmontagem das fachadas sociais e emocionais

Os acasos de uma distribuição cada vez mais errática colocam lado a lado no cartaz nacional dois primeiros filmes assinados por dois encenadores de teatro – Michael Grandage com Um Editor de Génios e o australiano Simon Stone que ganha o “duelo” com esta adaptação livre de O Pato Selvagem de Henrik Ibsen. Há que dizer que A Filha estará para O Pato Selvagem como a recente remake de Os Sete Magníficos para Os Sete Samurais de Kurosawa – uma releitura de uma releitura, já que Stone já havia encenado a peça de Ibsen numa versão da qual esta adaptação cinematográfica também se afasta. O essencial a reter, contudo, é que A Filha é exactamente o oposto de teatro filmado. Antes uma pequena “bola de neve” em movimento e embalo constantes, uma teia de acontecimentos aparentemente anódinos que se desenrola pacientemente, inexoravelmente, paredes-meias com a tragédia grega no modo como tudo se precipita como se estivesse predestinado.


Numa cidadezinha australiana dependente de uma serração à beira do encerramento, o regresso de um “filho pródigo” para o casamento em segundas núpcias do pai ameaça revelar segredos e desfazer fachadas pacientemente construídas, como um pauzinho que vem desregular por completo a engrenagem pacata e conformada que liga as famílias Neilson e Finch. É uma engrenagem que não é apenas emocional mas também social, numa surda e apenas aparentemente imperceptível “luta de classes” que reflecte igualmente os tempos difíceis em que vivemos, com a derrocada da máquina controlada com imensa segurança por Stone. Se é verdade que em alguns momentos o realizador parece sucumbir à tentação da imagem demasiado significativa (desde os tiros premonitórios sob um céu plúmbeo dos primeiros momentos até à câmara à mão dos momentos mais dramáticos), é também verdade que em nenhum momento se sente a origem teatral do material, e que Simon Stone parece menos estar a “armar-se” em cineasta do que a fazer-se como realizador. A Filha mereceria mais do que esta estreia confidencial numa das semanas mais cheias do ano.


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