sábado, 8 de outubro de 2016

Faz um vistão, a seguir desaparece

JORGE MOURINHA  06/10/2016

A adaptação ao cinema do êxito de livraria de Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio é uma máquina de emoções bem oleada mas descartável.


Não há muito como dar a volta ao facto de que, se Alfred Hitchcock fosse vivo, chamaria um figo ao best-seller de Paula Hawkins – os seus temas recorrentes (o inocente em perigo, o falso culpado, o macguffin que só está lá para despistar) estão todos aqui.

A própria premissa do filme daria pano para mangas – a história de um desaparecimento misterioso contado pelo ponto de vista de uma suburbana a caminho do emprego (Emily Blunt) que viremos a perceber não ser tão de confiança como parece. Só que, primeiro, Tate Taylor não é Hitchcock (embora o realizador de As Serviçais e Get On Up cumpra o caderno de encargos que lhe é pedido com apreciável eficácia e assinalável desembaraço). E, segundo, Taylor também não é David Fincher, porque A Rapariga no Comboio nunca consegue ejectar a sensação de ser um “aproveitamento” do sucesso de Em Parte Incerta, substituindo a impiedosa entomologia Chabroliana daquele por uma dimensão de “montanha russa” mais próxima do thriller americano anos 1980 (exemplificado por De Palma no seu melhor ou Adrian Lyne no pior).


A actriz Rebeca Ferguson, que tem-se destacado em Mission: Impossible - Rogue Nation[ler crítica], ao lado de Tom Cruise, juntará a Emily Blunt na adaptação do best-seller The Girl On The Train (A Rapariga no Comboio), da autoria de Paul Hawkins (editado emPortugal através da Topseller), que será assinado por Tate Taylor (The Help [ler crítica]).

O enredo segue Rachel (Blunt), uma mulher que apanha todos os dias o mesmo comboio. Durante a viagem, observa as mesmas paisagens e as mesmas casas, numa delas vislumbra a mesma família. Entediada com o percurso diário, Rachel imagina a vida perfeita destas mesmas, idêntica aquela que havia possuído e que perdeu recentemente, chegando mesmo a atribuir nomes aos desconhecidos do outro lado da janela. Porém, numa das suas triviais viagens, algo estranho capta a atenção da rapariga, uma imagem rápida que leva a suspeita de algo terrível. Rachel participa à polícia sobre o sucedido, sem imaginar que com isso trará consequências a todos os envolvidos.    

É o mesmo tipo de construção em quebra-cabeças, de “golpe de teatro” constante que obriga a repensar por completo a trama, só que aqui esticando a corda ao ponto da inverosimilhança. Um cineasta mais inspirado seria capaz de pegar nisto e passar por cima dos buracos e da implausibilidade para chegar à sua essência (uma espécie de girl power pós-feminista e anti-misógino), mas Taylor fica-se pela simples máquina de emoções bem apresentada e bem oleada que faz um vistão durante duas horas para desaparecer, como se fosse tinta invisível, logo a seguir.

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