terça-feira, 23 de agosto de 2016

João Pedro Rodrigues Melhor Realizador e Leopardo de Ouro para a Bulgária

João Pedro Rodrigues

Com a habitual conferência de imprensa de anúncio dos prémios ao princípio da tarde de sábado, deu-se por encerrada a edição 2016 do Festival de Locarno, um ano antes das celebrações do seu 70.º aniversário. O Leopardo de Ouro, vencido em anos anteriores pelo filipino Lav Diaz e pelo sul-coreano Hong Song-soo, coube este ano à búlgara Ralitza Petrova e à sua primeira longa-metragem, Godless — por unanimidade, como fez questão de dizer o presidente do júri, Arturo Ripstein.

O Ornitólogo

O Prémio Especial do Júri foi também para a Europa do Leste, para o romeno Radu Jude e Inimi Cicatrizate. Da vasta representação portuguesa, apenas o mais “mediático” dos filmes a concurso, O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, regressa com um prémio — Melhor Realizador, sucedendo nesta categoria a Pedro Costa, que ganhou na edição de 2014 por Cavalo Dinheiro. De notar, ainda assim, que o vencedor da secção Cineastas do Presente, El Auge del Humano, do argentino Eduardo Williams, é uma co-produção com Portugal (através da Bando à Parte, de Rodrigo Areias).

Pela primeira vez, João Pedro Rodrigues é premiado num dos grandes festivais internacionais da chamada “categoria A”. Depois de ter passado pelo concurso de Veneza e pelas secções paralelas de Cannes (Quinzena dos Realizadores e Un Certain Regard), o realizador voltou a Locarno quatro anos depois de aqui ter mostrado A Última Vez Que Vi Macau, e regressa a Lisboa com o Leopardo para Melhor Realizador, entregue pela segunda vez em três anos a um cineasta português. “Quando estás em competição, há sempre uma possibilidade de venceres um prémio", diz o realizador de O Ornitólogo numa curta conversa telefónica com o PÚBLICO, "e se pensares que este é o meu quinto filme, podemos dizer que levou tempo”, ri-se.

Rodrigues, que veio em “viagem-relâmpago” a Locarno para receber o Leopardo de Prata, defende que o prémio de realização, mais do que destacar um filme em especial, consagra a visão do seu autor: “Acredito que é um prémio não só por este filme, mas sobretudo pelo meu percurso. É uma confirmação de que vale a pena fazer filmes e vale a pena mostrar a minha visão do mundo — sobretudo porque é isso que me interessa sempre no cinema dos outros.”
Um sabor especial

Godless, de Ralitza Petrova, Leopardo de Ouro

A vitória de Godless na competição internacional veio dar razão aos prognósticos menos optimistas, que sugeriam um palmarés que passasse ao lado dos filmes mais estimulantes a concurso. História de uma cuidadora de idosos numa cidade de província búlgara que rouba os documentos dos seus doentes para os vender no mercado negro e começa a questionar a moralidade do que faz, Godless é um filme brutal, opressivo, indignado, sobre a corrupção. Terá sido essa dimensão activista, a par da utilização de actores não profissionais, a justificar a unanimidade do veredicto, ainda por cima num júri com três realizadores atentos ao acordar de consciências: o mexicano Arturo Ripstein, o iraniano exilado Rafi Pitts e o chinês Wang Bing.

Mas a verdade é que, numa edição em que Bangkok Nites, do japonês Katsuya Tomita, abordou questões sociais com muito mais elegância e originalidade, o prémio à primeira longa-metragem de Ralitza Petrova é pouco representativo do melhor que se viu este ano em Locarno.

Ainda assim, há que saudar os galardões atribuídos à delirante viagem de transformação de um cientista de O Ornitólogo (Melhor Realizador) e ao olhar desencantado sobre os anos antes da Segunda Guerra Mundial vistos de um sanatório romeno em Inimi Cicatrizate (Prémio Especial do Júri), mesmo que tragam um leve ar de prémio de consolação para a franja mais arrojada do certame. Para o filme de João Pedro Rodrigues, é uma vitória com um sabor muito especial, visto que o realizador ainda não foi pago pelo seu trabalho e que O Ornitólogo esteve em Locarno sem qualquer apoio oficial quer da produtora Blackmaria quer do ICA — Instituto do Cinema e do Audiovisiual (que, ainda assim, esteve presente no festival, tal como o secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, que fez uma viagem rápida a Locarno para assistir a uma das projecções).

O Auge do Humano, de Eduardo Williams, prémio principal da secção Cineastas do Presente

Inevitavelmente, dados os constrangimentos laborais, o Leopardo de Melhor Realizador tem um sabor especial. “Quero dedicar este prémio às pessoas que trabalharam comigo, que sempre se mostraram do lado do filme e que me acompanham há muitos anos”, diz o cineasta. “Disse-o quando o apresentei aqui — este é um filme que só podia ter sido feito com amigos. O Ornitólogosó se fez e só se terminou porque eles também quiseram que o filme se fizesse. Estas pessoas suportaram o insuportável e espero que a visibilidade que este prémio vem dar ao filme ajude a resolver tudo muito em breve.”

No interim, o júri atribuiu uma menção especial a Mister Universo, da dupla Tizza Covi e Rainer Frimmel, e ficou também pela Europa do Leste nos prémios de representação: Melhor Actriz para Irena Ivanova, emGodless; Melhor Actor para o polaco Andrzej Seweryn, em The Last Family, de Jan P. Matuszynski. Um palmarés que, sem ser escandaloso, se conformou precisamente a uma certa ideia do cinema de autor de que a própria selecção se procurou afastar.

"I, Daniel Blake", de Ken Loach, Prémio do Público

Na competição paralela Cineastas do Presente — júri presidido pelo realizador e argumentista italiano Dario Argento — verificou-se a quase unanimidade entre observadores e jurados. Leopardo de Ouro da secção ao filme do argentino Eduardo Williams El Auge del Humano, vertiginosa alegoria da globalização; Prémio Especial do Júri ao olhar sobre a sociedade de The Challenge, do italiano Yuri Ancarani; Melhor Realização a Mariko Tetsuya, pelo japonês Destruction Babies, versão teenage de Clube de Combate; e menção especial do júri a Viejo Calaver, de Kiro Russo. El Auge del Humano recebeu ainda uma menção especial na categoria de Primeira Obra, entregue por um júri separado que deu o Prémio de Melhor Primeira Obra ao delicioso El Futuro Perfecto, de Nele Wohlatz, e às suas atribulações de uma chinesa em Buenos Aires. Grande resultado, aliás, para a Argentina nesta secção paralela, compensando a sua total ausência no concurso principal onde, contudo, Hermia & Helena, de Matías Piñeiro, e La Idea de un Lago, de Milagros Mumenthaler, tinham defensores bastante fortes.

Finalmente, na categoria de curtas, os prémios máximos foram para o franco-belga L’Immense retour (romance), de Manon Coubia, e para o suíço Die Brücke über den Fluss, de Jadwiga Kowalska. O Prémio do Público, votado pelas audiências que todas as noites acorriam às projecções da Piazza Grande, coube a I, Daniel Blake, a Palma de Ouro de Cannes 2016, do britânico Ken Loach.

El Futuro Perfecto, de Nele Wohlatz, Melhor Primeiro Filme


Competição Internacional

Leopardo de Ouro — Godless (Bulgária, Dinamarca, França), de Ralitza Petrova

Prémio Especial do Júri — Inimi Cicatrizate/Scared Hearts (Roménia, Alemanha), de Radu Jude

Melhor Realização — João Pedro Rodrigues, por O Ornitólogo (Portugal, França, Brasil)

Melhor Actriz — Irena Ivanova, por Godless (Bulgária, Dinamarca, França), de Ralitza Petrova

Melhor Actor — Andrzej Seweryn, por Ostatnia Rodnizina/The Last Family (Polónia), de Jan P. Matuszynski

Menção Especial — Mister Unvierso, de Tizza Covi, Rainer Frimmel (Áustria, Itália)

Cineastas do Presente

Leopardo de Ouro — El Auge del Humano (Argentina, Brasil, Portugal), de Eduardo Williams

Prémio Especial do Júri — The Challenge (Itália, França, Suíça), de Yuri Ancarani

Melhor Realizador Emergente — Mariko Tetsuya, por Destruction Babies (Japão)

Menção Especial — Viejo Calavera (Bolívia, Quatar), de Kiro Russo

Melhor Primeiro Filme — El Futuro Perfecto (Argentina), de Nele Wohlatz

Curtas-Metragens

Pardino d'Oro Internacional — L'Immense Retour (Romance) (Bélgica, França), de Manon Coubia

Pardino d'Oro Nacional — Die Brücke Über Den Fluss (Suíça), de Jadwiga Kowalska

Pardino d'Argento Internacional — Cilaos (França), de Camilo Restrepo

Prémio do Público — I, Daniel Blake (Reino Unido, França, Bélgica), de Ken Loach

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