domingo, 3 de julho de 2016

Morreu Michael Cimino, realizador entre o céu e o inferno

VASCO CÂMARA   02/07/2016

Um dos grandes líricos do cinema americano, teve Óscares por O Caçador, mas tem o seu nome impresso com as letras gigantes de uma catástrofe: As Portas do Céu (Heaven's Gate, 1980).

Michael Cimino tinha 77 anos GABRIEL BOUYS/AFP

Morreu Michael Cimino, vencedor de um Óscar de Melhor Realizador por O Caçador. Ou teria sido o realizador que, com As Portas do Céu, ajudou a bater com estrondo as portas dos 70s e a acabar com o sonho da Nova Hollywood? Teria 77 anos - a sua idade e alguns factos da sua vida são incertos, mantidos numa zona de mistério ou ocultados pelo próprio. O anúncio foi feito no sábado, no Twitter, pelo director do Festival de Cannes Thierry Fremaux: “Michael Cimino morreu, em paz, rodeado dos seus e das mulheres que amava. Nós também o amávamos.” Eric Weissmann, amigo e ex-advogado do realizador, confirmaria a morte. Mas segundo o The New York Times, que o cita, o corpo terá sido encontrado na sua casa de Los Angeles, sábado, pela polícia, que foi contactada por amigos do realizador quando não o conseguiram contactar por telefone. A causa da morte, segundo Weissmann, está ainda por determinar.

Apesar do sucesso com O Caçador (1978), história de amigos operários da Pennsylvania e das suas perdas com a experiência da Guerra no Vietname (nomeações para nove Óscares, vencedor de cinco, entre os quais o de melhor filme, "batendo" O Regresso dos Heróis, de Hal Ashby, visto como adversário ideológico), Cimino levaria à falência o estúdio da United Artists com As Portas do Céu (Heaven's Gate, 1980): filme "maldito", um dos fracassos de bilheteira de maiores consequências para o cinema americano. Não terá sido, na verdade,"apesar de...". Uma coisa, o sucesso de O Caçador, levaria à outra: com a indústria a seus pés, teve praticamente carta branca, e 12 milhões de dólares, para entregar até ao Natal de 1979 o seu filme sobre o conflito sanguinário, nas terras do Wyoming dos anos 1890, entre barões do gado e colónias de imigrantes, entre a lei e o vigilitantismo.


Entregou-o quase um ano depois, 40 milhões de dólares depois, mas quando o filme chegou às salas já estava desapossado da sua possibilidade de ser "um filme". Já se tornara media event. E foi como se as salas o expelissem. Todo o espectáculo da rodagem, os adiamentos da estreia, os comentários sobre as excentricidades de Cimino, que queria ter o nome no genérico do tamanho do título do filme (e assim ficou com o seu nome pegado à dimensão desse desastre), foram antecipando com ironias amargas e slogans espirituosos (To Hell with Heaven’s Gate; Apocalypse Next) aquilo que se seguiu.

Eclipsaram-se os 70s

O desastre anunciado confirmava-se: uma semana em exibição numa sala de Nova Iorque, a crítica a ditar o "unqualified disaster" (Vincent Canby noThe New York Times...) desta versão original de 219 minutos (seria retirada, para segunda distribuição em versão mais curta, que só tornaria a comunicação emocional ainda mais difícil) e o filme a ser citado por todos, entre eles muitos que não o tinham visto, como exemplar da bizarria e da megalomania dos tempos em que Hollywood estivera à mercê dos "autores". Cimino ajudou a ditar com o fracasso o fim de uma era, o fim dos sonhos da geração dos movie brats, foi isso que lhe aconteceu, fechar a porta aos 70s.

Michael Cimino

Podia ter acontecido com Coppola (Do Fundo do Coração, 1981), com William Friedkin (Sorcerer, 1977), com Spielberg (1941, Ano Louco em Hollywood, 1979), com Peter Bogdanovich (They All Laugued, 1991), que tiveram os seus fracassos. Mas, independentemente do efeito deles na vida dos seus autores (a Zoetrope de Coppola, por exemplo, faliu...), o grande estrondo aconteceu a Cimino. As Portas do Céu parecia trazer, em si, aliás, uma premonição. Como se recebesse e abraçasse a catástrofe. Tudo começa, se se lembram, na Harvard do século XIX, com dois amigos, James Averill (Kris Kristofferson) e William Irvine (John Hurt), no rodopio de valsas de Strauss e de entrega de diplomas à elite estudantil de que fazem parte. É então que a personagem de Hurt diz: "Os anos 1870 acabaram!".

Há-de haver um corte, e o prólogo em Harvard, momento de ideais e de esperança, dará lugar à impotência, ao niilismo… sentimentos inescapáveis face à personagem de Kris Kristofferson, que vemos agora no comboio a caminho do Wyoming 20 anos depois da sua formação em Harvard, impregnado de malaise. (Está tudo nessa passagem, como no "corte" que nos transportava de forma abrupta da Pennsylvania para o Vietname em O Caçador - duas obras que caminham com o trauma: a elipse que contêm, e que parece abri-los à dor e à violência, é uma ferida, no próprio tecido do filme, sempre a alastrar, a consumi-lo). Pois bem, Heaven's Gate e o seu fracasso alastraram, e acabaram por dizer: "Os anos 1970 acabaram!".

Kris Kristofferson e Isabelle Huppert em Heaven's Gate

É verdade: pouco tempo depois, duas semanas apenas, da estreia começava a era Reagan. Deixaria de haver tolerância para visões lúgubres de uma América fundada não sobre o abraço fraterno mas sobre o genocídio, a guerra de classes e o racismo. Em 2012, por alturas da edição em DVD do filme, em cópia que restaurava a versão original, Kris Kristofferson dizia ao The New York Times que a visão de Heaven's Gate sobre o capitalismo americano esteve na origem de um verdadeiro “assassinato político". Kristofferson lembrava-se de que o attorney general de Reagan, William French Smith, mandou recados aos chefes dos estúdios de Hollywood: "Não deveria haver mais filmes com uma visão negativa da história da América".

Eclipsaram-se os anos 70 (uma década depois do “we blew it” de Easy Rider,pronunciado em 1969). Desapareceu a Nova Hollywood, substituída pelas corporações (mas não desapareceram os filmes que ultrapassam orçamentos...). E Cimino foi definhando com O Ano do Dragão (1985), O Siciliano (1987), Desperate Hours (1990) e The Sunchaser (1996), com rasgões de beleza mas quase sempre tolhido.


"Não tem graça ser famoso pelas piores razões: torna-se uma ocupação esquisita", dizia, em 2012, no Festival de Veneza, antes de o director Alberto Barbera lhe entregar o Prémio Persol que reconhecia "uma das mais intensas e originais vozes do cinema americano". Nessa altura, procedia-se a uma revisão de Heaven's Gate. Que nos últimos anos tem sido descoberto enquanto filme, para além de media event, já que esteve sempre como que inacessível, impossibilitado de, nas coisas belíssimas que tem e nas suas dificuldades - a problemática coabitação entre o monumental e o íntimo -, poder dar a ouvir, enfim, a vibração trágica do seu trio: Averill (Kristofferson)/Ella (Isabelle Huppert)/ Nathan (Cristopher Walken) - e como todo ele é uma deflagração de fragilidade, Chris Walken…

Lirismo e destruição

Tudo começara antes, como se disse. Naqueles anos de euforia, em que Hollywood descobria um wonder boy. Os anos de O Caçador. O ressentimento desenvolvia-se nessa altura: na muito emotiva e electrizante noite desses Óscares, Jane Fonda, premiada como melhor actriz por Coming Home, confrontava o realizador nos bastidores por ter feito um filme "racista, a versão do Pentágono da guerra" do Vietname. (Mas parece que nem tinha visto o filme). Duas sequências provocavam a divisão (porque, acredite-se ou não, houve quem o considerasse o melhor filme anti-guerra desde A Grande Ilusão, de Jean Renoir): a da ruleta russa, no Vietname, a suposta prova do racismo de Cimino, e a do hino americano, em casa, a suposta evidência do seu paroquial patriotismo.

O Caçador", Óscar para melhor filme

Fora do Dorothy Chandler Pavillion, Os Veteranos do Vietname contra a Guerra faziam piquete. O facto de ter sido John Wayne - última aparição pública, já minado pelo cancro - a entregar o Óscar a Cimino, parecia autorizar todas as leituras. Até porque se começava a explorar supostas incongruências biográficas do realizador (a sua idade, a veracidade do seu currículo académico e do que ele tinha apresentado como "esforço de guerra"...) para atacar O Caçador. Conservador, Wayne era ele próprio autor de um pedaço de propaganda bélica, Os Boinas Verdes (1968), e tinha sido convidado por Cimino para uma primeira projecção do filme. No final da qual teria exclamado: "Isto vai mostrar a alguns filhos da puta como se vive na América".

O "boneco" estava feito. Cimino ia desautorizando leituras políticas do filme, reafirmando que não era sobre uma guerra justa ou injusta, era sobre "gente vulgar deste país que viajou das suas casas para o coração das trevas e voltou". Mas não o ouviam, e a sua personalidade trazia anti-corpos ao discurso. Conservador? Sim, tal como John Ford - um dos seus cineastas de cabeceira - quando cantava a América. A crítica Pauline Kael referiu-se assim a The Deer Hunter e tocou no essencial: "um filme tacanho com grandeza dentro... uma obra espantosa... com uma visão extasiada da vida normal - a poesia do banal." (Se John Ford está na alma de O Caçador, Sam Peckinpah, outro dos heróis de Cimino, é o horizonte de As Portas do Céu, mas se calhar cada filme do cineasta vive sempre no caminho entre esses dois gigantes líricos, do idealismo para a destruição).
Cimino com Robert de Niro na rodagem de O Caçador

Michael Cimino nasceu em Nova Iorque e era descendente de italianos. Estudou em Yale. Fez anúncios de televisão. Iniciou a carreira em Los Angeles como argumentista - no seu currículo, O Cosmonauta Perdido (1972) e o segundo filme da série Dirty Harry, Magnum Force (1973). Antes de O Caçador realizou A Última Golpada/Thunderbolt and Lightfoot (1974), com Clint Eastwood, com quem assinou o argumento. Já aí estava a paisagem americana como reservatório mitológico que faz a sua cobrança, em tragédia, a quem lá entra, a quem a atravessa.

Raramente dava entrevistas, e durante os anos que seguiram ao desastre deAs Portas do Céu recusou-as. Em 2001 publicou o seu primeiro romance, Big Jane. Nesse ano, o Ministro da Cultura francês distinguiu-o com a medalha de Chevalier des Arts et des Lettres. Megalómano? Um dos grandes do cinema americano e uma das suas grandes "baixas". Em 2010, aceitou viajar com um jornalista francês, Jean Baptiste Thoret, pelos "lugares" dos seus filmes - o Colorado com as suas primeiras neves, os céus imensos do Montana, o Wyoming. Teve a sua catedral, tal como John Ford teve Monument Valley. Resultou num livro esta longa conversa sobre a perda, sobre os ideais que tombam, sobre os "novos" sacrificados pelos "velhos". Veja-se esta passagem e o que ela pode encerrar: "No final, é sempre a mesma coisa, a traição dos idealismos de juventude pelos mais velhos: os velhos acabam por ganhar, em todas as guerras, em todos os países, em todos os períodos da história. E os velhos justificam isso contando tretas: os jovens desencadeando as catástrofes e eles ficando para limpar a casa". É um comovente road book, Michael Cimino, Les Voix Perdues de l'Amérique(Flammarion, 2013). Já se tinha perdido. No final do seu Dicionário Biográfico de Cinema, David Thomnson terminava a sua entrada sobre o realizador de Heaven's Gate: "Cimino é um monstro e enquanto ele viver temos de estar preparadados para lhe ceder terreno, ou abatê-lo."

Michael Cimino não acha graça a "ser famoso pelas piores razões"


Michael Cimino esteve em Veneza a revisitar o filme que fez a sua fama infame: Heaven's Gate (As Portas do Céu, 1980). A versão original da obra foi restaurada pela Criterion.

Silhueta juvenil, instalada na androginia, Michael Cimino, de 73 anos, sobreviveu a uma viagem de vaporetto para o Lido, ele que odeia barcos. O que é isso para quem sobreviveu a Heaven's Gate (As Portas do Céu, 1980)? "Lost for words", disse, e começou por isso a divagar. A lembrar-se de um há muito, muito tempo, quando numa anterior edição do festival se declarou a uma rapariga ("estava ali", apontou para a sala). "Será que ela se casou?", perguntou, inventando uma miragem e assim fazendo com que inventássemos a memória de Kris Kristofferson, no seu iate, no final deHeaven's Gate, a chorar pela miragem de Isabelle Huppert.

E depois: "Não tem graça ser famoso pelas piores razões: torna-se uma ocupação esquisita", disse, antes de o director do festival, Alberto Barbera, lhe entregar, ontem, o Prémio Persol 2012, que reconhece "uma das mais intensas e originais vozes do cinema americano".

A seguir, a apresentação da versão original desse Nascimento de Uma Naçãoniilista, dessa visão da América como terra fundada na violência, na xenofobia e no extermínio social, nesse mergulho numa paisagem que cobra tragédia às figuras que nela se aventuram – 219 minutos restaurados pela Criterion.

Michael Cimino

Unqualified disaster

"Esquisito" foi o que Cimino se tornou nos últimos 30 anos, quando, no trauma do desastre comercial e crítico desse filme – o unqualified disaster que sentenciou Vincent Canby, do New York Times, foi agarrado por toda a gente, mesmo por quem não vira o filme –, definhou como cineasta até desaparecer de vista.

Em 2001, a Vanity Fair convenceu-o a mostrar-se, o álibi era a promoção de um livro, e o retrato que fazia era o de um Howard Hughes destes tempos, com plásticas que tinham tornado irreconhecível aquele que era antes um dos corpos densos e rechonchudos do grupo dos italo-americanos dos movie brats.

Mas estas não são as "piores razões". Essas são as que decorrem de Heaven's Gate: a fama de "megalomania", a calm, determined, relentless pursuit of the perfect, alguém descreveu, com que realizou, fazendo o orçamento passar de 12 para 40 milhões de dólares, e com que destruiu uma companhia, a United Artists, quando as bilheteiras não reagiram; ainda, o ter sido responsável por esse desastre exemplar, já que – simbolizando aquilo que, segundo alguns, era a bizarria dos tempos, os anos 70, Hollywood à mercê dos "autores" – Cimino ajudou a ditar com o fracasso o fim de uma era, o fim dos sonhos da geração dos movie brats.


A História é irónica: a United Artists tinha sido formada por Chaplin, Mary Pickford, Griffith e Fairbanks para proteger o trabalho dos artistas e os espectadores do machine made entertainment. Que, nos anos 80, quando os empresários passaram a ditar o conceito dos filmes, se oficializou como regresso à ordem. Mas, como disse Francis Coppola, as corporações tomaram conta dos estúdios e da loucura que ia no asilo, mas com isso desapareceram as visões pessoais – e nem por isso os orçamentos baixaram.

Na plateia, na sessão de ontem, estava Joann Carrelli, a produtora que esteve com Cimino durante o embate com a United Artists, quando o realizador, depois do sucesso e dos óscares de O Caçador, passou de bestial a besta. Foi ela que começou por ser sua agente, era ele realizador de publicidade em Nova Iorque. Foi ela que, nos últimos 32 anos, se bateu por tornar visível a versão original de Heaven's Gate, aquela que, depois do unqualified disaster, esteve em exibição apenas uma semana em Nova Iorque.

Cimino foi obrigado a montar uma versão mais curta que apenas tornou o filme incompreensível, agudizando os problemas de coabitação entre o monumental e as vibrações íntimas – o what one loves about life are the things that fade, como Cimino quis promover o filme, o sopro trágico do trio Averill (Kristofferson)/Ella (Huppert)/ Nathan (Cristopher Walken)...

Foi Carelli que convenceu, primeiro Cimino, que se recusava a revisitar essa fase da sua vida, depois a MGM, que se tornara detentora dos direitos com a absorção da United Artists, a libertar o filme para o restauro. Um filme que nunca tinha sido visto, então: tapado pelo perfil de "acontecimento", inacessível, impossibilitado de, nas coisas belíssimas que tem e nas suas dificuldades, ser visto como aquilo que é: um filme.

Bem-vindo, mr Kasinski mas não tivemos já Jerzi Kosinski?

Um homem "banal" descobre-se subitamente célebre, a sua cara derrama-se pelo YouTube, os pedidos de autógrafos na rua não o largam, ele diz não à celebridade e desenha um angustiado ponto de interrogação no espelho. Porquê eu?

Diz não à celebridade, e passa, por isso, a ser mais requisitado pelos talk shows. Talvez ele seja um profeta destes tempos – os canais televisivos é que sabem mais: ele faz subir as audiências quando solta o grito de revolta de homem "banal".

Michael Cimino

E depois, tal como começou, sem explicação, tudo acaba: no YouTube, os homens banais deitam abaixo Martin Kasinski. Que, como se vê, começou como o Chance/Peter Sellers do Being There de Hal Ashby (1979), o jardineiro simplório cujas máximas são tomadas como alegorias, e puxa pelo grito de revolta de todos os anónimos do mundo como o Peter Finch deNetwork (Sidney Lumet, 1976) – só que agora as pessoas não gritam nas varandas, filmam-se a gritar e põem isso no YouTube. Isto para dizer queSuperstar, de Xavier Giannoli (a concurso), com o seu "herói" interpretado por Kad Merad, não faz mais do que redistribuir. E por isso sabe a remakenão assumido (embora o filme tenha sido escrito a partir de um romance de Serge Joncour). Encontramos versões simplistas – menos personagens e mais bonecos a quem o argumentista colocou na boca aquilo que vai servir para os "representar"... – da devoradora ingenuidade da personagem do filme de Ashby (adaptado do romance do polaco-americano Jerzi Kosinski, 1933-1991, chamou-se em Portugal Bem-Vindo Mr. Chance) ou do calculismo corporativo que gelava no premonitório filme de Lumet. Que no seu tempo foi entendido como ficção científica - porque parecia escandaloso o anúncio da realidade de hoje. Ironia das ironias: são esses filmes dos anos 70 que nos dizem o fundamental sobre nós, sobre o culto do estrelato e sobre o show da realidade, já que Superstar apenas replica o culto da superficialidade.

A abrir o concurso desta 69.ª edição, o russo Betrayal, de Kirill Serebrennikov. Que começa como se fosse um retrato psicológico e social da "traição" – um homem e uma mulher descobrem que os respectivos cônjuges são amantes –, depois inflecte para uma dimensão onírica, fantasmática, como se lhe interessasse a obsessão em abstracto e, afinal, depois conclui perante o espectador que não é nada disso, que afinal é um filme sobre a manipulação, em que as mulheres são os dínamos fatais e os homens as vítimas. Esta progressão, até se revelar - e até revelar a sua misoginia –, não tem o efeito de um golpe de teatro; vai, antes, enfraquecendo com suspeita esta ambição do cinema como máquina de monstros. Suspeita-se que Kirill Serebrennikov queria ser Brian de Palma.

E por falar em femmes fatales, eis Marina Abramovic... Performer desconfiada do teatro, território onde, diz, é tudo a fingir, onde actores e público estão protegidos um do outro, pediu a Bob Wilson que encenasse a sua vida. Ele também encenou a sua morte. Bob Wilson's Life and Death of Marina Abramovic, de Giada Colagrade (secção Giornate degli Autori), é um documentário de bolso sobre esse encontro, que foi também o encontro com o actor Willem Dafoe ou com o transgender singer Antony Hegarty, em que a vida de Abramovic, a infância na Jugoslávia de Tito, onde os pais eram figuras proeminentes do Partido Comunista, a violenta relação com a mãe e as suas violentas relações afectivas são destiladas pela luz do encenador texano. Espreita-se o espectáculo de uma mulher que delegou nos homens a possibilidade de a contarem, uma drama queen que aceitou o hieratismo do palco, e a recusa de Wilson da psicologia para fazer a sua catarse - as suas fraquezas como motor da sua arte.

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