sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Hollywood não sabe o que fazer com as suas histórias



LUÍS MIGUEL OLIVEIRA  17/02/2016

Se o mcarthyismo era maniqueísta, tratá-lo, como faz Trumbo, apenas virando o maniqueísmo ao contrário não é a melhor solução.


Os anos 50 podem muito bem ter sido a década mais esplendorosa de Hollywood, mas nos bastidores foram por certo o período mais ferido e mais divisivo, marcado pela “caça às bruxas” do Senador McCarthy, que deu cabo de várias carreiras e pôs metade de Hollywood de costas voltadas para a outra. Só esta aparente contradição serviria para avisar que o simplismo é mau conselheiro quando se trata de abordar esta década do cinema americano - enfim, isto seria verdade para qualquer década nas especialmente para esta, como se voltará a ver em breve no Hail, Caesar dos Coen e na condescendência sobranceira com que tratam este período.


 Mas o simplismo foi a via de Jay Roach, neste olhar sobre uma figura crucial entre a “dissensão” hollywoodiana, Dalton Trumbo, argumentista de mérito, mais tarde realizador, que passou dez anos na “lista negra” (e algum tempo na prisão), impossibilitado de trabalhar, pelas suas ligações ao Partido Comunista. Se o mcarthyismo era maniqueísta, tratá-lo apenas virando o maniqueísmo ao contrário não parece a melhor solução - e caracterizar John Wayne, por exemplo, como simples “bruxa anti-comunista” é um disparate total, como se o homem não fosse muito mais complexo do que isso. Mas no fundo é só o que Trumbo faz, encontra um santo e narra a luta dele com um mundo agreste, sem discutir, sem reflectir, sem virar os olhos para o horizonte, como se a hagiografia de trazer por casa fosse tudo que Jay Roach consegue (e aparentemente, é).


Apesar da qualidade dos actores a luta deles com os bonecos em que os enfiaram (Helen Mirren como Hedda Hopper é um caso gritante) é infrutífera, e tudo tem aquele ar indistinto de um telefilme de época, mastigado e explicativo, demasiado mastigado e insatisfatoriamente explicativo. É pena, é mais uma oportunidade perdida, Hollywood está sentada sobre um manancial de histórias infindável, mas não sabe o que fazer com elas, não sabe o que fazer com a sua História, para além da mistura de embaraço e nostalgia tonta daqueles bailaricos “de rigueur” em cada cerimónia de oscares. Trumbo não anda muito longe disso, infelizmente. E cada excerto “real” incluido no filme, seja de filmes da época seja das audiências perante a Comissão das Actividades Anti-Americanas, tem mais força e vivacidade do que o resto de Trumbo todo junto.

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