domingo, 20 de dezembro de 2015

As Mil e Uma Noites


De Miguel Gomes
Muito naturalmente, As Mil e uma Noites é o “nosso” filme do ano. Talvez seja abuso dizer assim — “muito naturalmente”. Para começar, porque esta escolha é a soma de uma maioria, resultado das listas individuais dos três críticos deste jornal, não é o efeito de uma unanimidade. Depois, porque “nosso” é imposição totalitária. A cada um, é claro, o seu cinema. O “naturalmente” quer tão só dizer que a trilogia de Gomes, O Inquieto, O Desolado, O Encantado, fala de nós, hoje — nós, portugueses, e mais do que isso, nós espectadores de cinema. Somos também aquilo que vemos. Muitas vezes percebemo-lo mais tarde, quando compreendemos o que fomos “ali”. Com As Mil e uma Noites somos, espectadores e filme, umwork in progress de realidade e de ficção.


 A coisa está-se a construir. Aqui, agora. Por isso... “naturalmente” As Mil e uma Noites instalou-se nesta lista. Há a desmesura do gesto, a invenção de regras de produção — Portugal documentado durante um ano em directo, a realidade e a fantasia numa dança de cadeiras, o jornalismo na linha de partida para a efabulação. Contudo, há algo de mais íntimo em causa: o olhar a participar de uma aprendizagem. De há alguns anos para cá, cineastas portugueses — do André Príncipe deCampo de Flamingos sem Flamingos (2013) ao Rio Corgo (2015) de Sérgio da Costa e Maya Kosa... — vêm assumindo uma dissidência em relação à forma como o país e as suas gentes foram engavetados pelo audiovisual. Não querendo participar disso, partiram à procura, com o road movie querendo empossar os desapossados das suas narrativas. As Mil e uma Noites é câmara de eco onde se amplia este “país, precisa-se!”. Há exibicionismo na proeza, há dificuldades em permanecer sempre no encanto. Mas sobra muita delicadeza. V.C.


Maria José Oliveira saiu a chorar da projecção do segundo volume de As Mil e uma Noites. Isto em Cannes, onde se deu o primeiro confronto da jornalista com as ficções nascidas das histórias que investigou durante um ano. “Saí a chorar, nem consegui falar. Foi estranho estar a ver a forma como [a ficção] se aproximava tanto da realidade, era quase literal, as personagens, o cão, os cafés... Era exactamente o que eu tinha visto.”


Isto de que se fala é, em As Mil e uma Noites — O Desolado, a história de Luísa (Teresa Madruga) e Humberto (João Pedro Bénard) e do seu pacto suicida numa torre de Santo António dos Cavaleiros, subúrbio de Lisboa, que Maria José investigou durante um mês; é ainda a história de Vânia (Joana de Verona) e de Vasco (Gonçalo Waddington), casal de toxicodependentes que “herda” de Luísa e Humberto o cão Dixie, que afinal é o corpo de uma enorme vontade de amar e de uma ainda maior necessidade de esquecer consumida na explosão de narrativas e personagens que deflagra em câmara lenta ao som de Lionel Richie naquela torre — tanta tristeza enclausurada, é o ponto de rebuçado cinematográfico da trilogia.


Voltando a Cannes e às lágrimas da jornalista, porque a realidade e a ficção trocaram de lugar... “Eu estava chateada com ele” — ele, o realizador, Miguel Gomes. “É que nunca pensei que fosse tão longe. ‘A mim só me apetecia insultar-te’” — disse-lhe. “Não estava à espera que chegasse tão próximo do que realmente aconteceu, até os actores estavam próximos daquilo que imagino que eles [o casal] eram” — a música dos anos 80 conferia. “Ele é demasiado rápido, o Miguel, a apanhar, a ler as pessoas, a interpretar o que as pessoas estão a pensar.”


Se foi demasiado para a jornalista, antes tinha sido demasiado para o realizador: “Fui à rodagem de Santo António dos Cavaleiros num dia, apenas para falar com alguém que tinha sido próximo do casal. Estive pouco tempo no prédio, mas às tantas comecei a contar ao Miguel as conversas, coisas que me tinham dito, e o Miguel... ‘Pára, isso é demasiado para mim’. É que às vezes é preciso ficcionarmos para as coisas serem credíveis.”



Em tempo real

Maria José Oliveira, Rita Ferreira e João de Almeida Dias foram os jornalistas que durante um ano alimentaram, com as histórias que liam em jornais e blogues ou viam na televisão, a vontade de ficção do Comité Central, Mariana Ricardo, Telmo Churro e Miguel Gomes, argumentistas que aguardavam do outro lado da parede e da porta. Havia o “corta-e-cola” em dossiers, o ritual de entrega, à sexta-feira, “de uma lista de acontecimentos e temas” a propor. À segunda-feira esperava-os, aos jornalistas, a mesma lista, agora com as prioridades de investigação hierarquizadas de acordo com o apetite do Comité Central. 


“Apesar de inicialmente sentirmos que estávamos a trabalhar no escuro, sem saber bem o que pretendiam os argumentistas e o realizador, ao longo dos meses de trabalho percebemos que a nossa função era dar-lhes matéria-prima para eles a trabalharem como quisessem.” E começaram a perceber, aliás, “a apetência” dos argumentistas por histórias com animais — o cão, os pássaros, o galo... “Na sala onde os argumentistas trabalhavam existia um quadro enorme onde eles iam escrevendo, em cores diferentes, os temas que queriam ver investigados, os episódios a filmar, aqueles que já estavam filmados, as histórias que seriam encadeadas, etc.”



Mas o método não era rígido. Até porque “poucas coisas foram previsíveis no projecto”: “Trabalhávamos em tempo real, as coisas estavam a acontecer (ou tinham acontecido há pouco tempo) e os jornalistas iam para o terreno, algumas vezes com a equipa de filmagem.” O tráfego entre a realidade, que abastecia uma sala, e a ficção, que nascia ao lado, podia fazer-se também através de conversas, com o Comité Central a tomar notas.


 Uma breve num jornal a contar que uma juíza chorara a ler uma sentença, fez nascer a personagem de Luísa Cruz — tudo depois confirmado ao telefone — e o espectáculo de catarse popular, com caretos e tudo, de um Acto português sobre a cadeia de culpa, miséria e corrupção (segundo volume). Uma série de conversas em off com fontes, ouvidas por Maria José e Rita Ferreira, encheram os detalhes do episódio da troika, Os Homens de Pau Feito (primeiro volume). Mas outra das pièces de résistance, a aventura dos passarinheiros (terceiro), não começou em jornal algum.


Directed by Miguel Gomes
Produced by Luís Urbano
Screenplay by Miguel Gomes
Mariana Ricardo
Telmo Churro
Based on One Thousand and One Nights
Starring Crista Alfaiate
Dinarte Branco
Carloto Cotta
Adriano Luz
Rogério Samora
Maria Rueff
Cristina Carvalhal
Music by Mariana Ricardo
Cinematography Sayombhu Mukdeeprom
Edited by Telmo Churro

Production
company
O Som e a Fúria
Shellac Sud
Komplizen Film
BOX Productions

Release dates

16 May 2015 (Cannes)

Running time
381 minutes (uncut)

125 minutes (Volume 1) 131 minutes (Volume 2) 125 minutes (Volume 3)
Country Portugal
France
Germany
Switzerland
Language Portuguese
Budget €2.7 million




“O filho do Telmo Churro, que adora pássaros, falou ao pai nos tentilhões e nos concursos em Lisboa. O Comité Central pediu-nos para investigar. Começámos por ver vídeos de concursos no YouTube — em que se viam apenas homens, em silêncio, a beber cerveja e a ouvir os pássaros —, encontrámos blogues só sobre tentilhões, e o João de Almeida Dias começou a visitar os locais de encontro dos passarinheiros, como os Onze Unidos, no Beato. Ficámos espantados com aquela comunidade, aqui em Lisboa, sobre a qual nada sabíamos.


 O João escreveu duas grandes reportagens. E o interesse do Comité Central ia crescendo. Fizeram-se dezenas de entrevistas e a história dos tentilhões e dos passarinheiros passou a fazer parte da família, porque as filmagens foram feitas ao longo de muitos meses, no ‘intervalo’ de outras filmagens, e porque o João manteve sempre um contacto próximo com aquela comunidade, a pedido do Comité Central.”


Inserido no volume três, O Encantado, o mais doloroso da trilogia, aquele que, de forma mais profunda, menos circunstancial, menos datada até (porque, suprema ironia, a guerrilha anti-troika no primeiro filme pode surgir gasta, vista, esperada...), escava fundo na desilusão: os polícias protestam no Parlamento, os pássaros cantam; Grândola Vila Morena levanta-se com cravos e contra o Governo, e os pássaros cantam; os pássaros cantam, e ergue-se uma geografia social e afectiva de Lisboa, Norte e Oriental, que é retrato do país e da desilusão nacional.


“Para mim, é a história mais surpreendente, é a minha preferida. Uma comunidade que existe há dezenas de anos em Lisboa, com uma paixão improvável, que lhes consome grande parte do tempo livre e que não tem qualquer objectivo prático nem recompensa óbvia, a não ser o puro prazer estético. São como melómanos — ou cinéfilos.”


Como se vê, cada filme — como quer que lidemos com o exibicionismo no primeiro capítulo, O Inquieto, a mostrar-se sobretudo como proeza, ou com as dificuldades, no último, O Encantado, de traduzir cinematograficamente o encanto com a multiplicação de histórias (usa excessivamente a bengala do texto) — termina com uma peça de fôlego que nos reconcilia: os passarinheiros, a Torre de Santo António dos Cavaleiros, os desempregados de Aveiro, momento em que o volume um, enfim, se despe da sua consciência de que é tour-de-force e da necessidade de se mostrar como superação, disponibilizando-se — e superando-se, por isso — para uma série de monólogos catárticos. É um momento de depuração, de justeza.



“A apetência” dos argumentistas por histórias com animais — o cão, os pássaros, o galo...

“Aqueles quatro ‘magníficos’” — o episódio dos desempregados de Aveiro — “foram descobertos depois de termos feito dezenas de entrevistas a desempregados da região. Pedimos ajuda a instituições de solidariedade, a sindicatos, e chegámos a ir para a fila de um centro de emprego procurar alguém que estivesse disponível para falar connosco. Fizemos entrevistas longas, por vezes seis ou sete por dia, foi extenuante. Tal como aconteceu em muitas situações ao longo do ano, deparámo-nos com uma total disponibilidade das pessoas para contarem as suas vidas, foi um acto de generosidade da parte delas. Aquilo que surge em O Banho dos Magníficos, no momento dos monólogos, não é muito diferente do que aconteceu durante o período das entrevistas; é apenas mais curto e daí esse efeito de depuração.”


Que Portugal é o de As Mil e uma Noites? Encontra-se nos jornais, está na TV? “O tempo que tivemos para investigar cada uma das histórias, viajando por todo o lado, foi fundamental para nos dar uma ideia mais nítida do país. Os diferentes retratos de Portugal também aparecem nos jornais e nas televisões, mas faltam tempo, espaço e muitas vezes competência para os tratar devidamente. Em termos culturais e políticos, pouco ou nada mudou desde o século XIX, com zonas em que senti quase opressivamente um isolamento que se manifesta de diferentes formas, desde actos de violência a diversos tipos de carências. 


Apesar disto, encontrei quase sempre uma grande generosidade nas pessoas, disponíveis para conversar e contar as suas histórias. Mesmo quando a primeira abordagem era complicada. Porque me apresentava como jornalista, mas não estava a trabalhar para um órgão de comunicação social; porque escrevia para um site ligado a um filme, mas o filme ainda não tinha histórias; porque eu não sabia o que responder quando me perguntavam: ‘Mas vão fazer um filme sobre nós?’.”

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