sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Manoel de Oliveira, o realizador que viveu o século do cinema


Sempre lúcido em relação à vida e à morte, da qual dizia não ter medo, o realizador Manoel de Oliveira acreditava que a longevidade "era um capricho e o cinema uma paixão". O cineasta morreu esta quinta-feira, aos 106 anos.

Fosse da genética ou dessa paixão pelo cinema, certo é que Manoel de Oliveira viveu mais de um século e essa vivência ficará não só ligada à história do país como à do próprio cinema. Era o mais velho realizador do mundo e um dos mais activos, "porque tudo na vida se move até ao último momento".

Em 2013, em entrevista à revista francesa Cahiers du Cinema, Manoel de Oliveira deixava um lamento: "Eu penso que no país há uma grande indiferença pelo que já realizei. Tanto faz que o meu cinema exista ou não exista".

Rodou o último filme, "O velho do Restelo", já no jardim próximo de casa, no Porto, com quatro actores de eleição: Luís Miguel Cintra, Ricardo Trepa, Diogo Dória e Mário Barroso.

À mesma revista, Manoel de Oliveira revelou que tinha concluído o argumento para um outro filme centrado nas mulheres que fazem as vindimas e a adaptação de "A missa do Diabo", do autor brasileiro Machado de Assis.

Nas últimas décadas teve sucessivos projectos cinematográficos, uns mais amados que outros, uns mais premiados que outros, mas sempre fiéis a uma estética cinematográfica individual.

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu no dia 11 de Dezembro em 1908, no seio de uma família da burguesia industrial do Porto, ainda no tempo do cinema mudo.

O primeiro contacto com o cinema foi como actor, quando aos 19 anos fez figuração no filme "Fátima Milagrosa", de Rino Lupo, e com algumas experiências com cinema de animação.

A paixão pelo cinema rivalizava com o gosto pelo atletismo (foi campeão de salto à vara) e pelo automobilismo, modalidade em que conquistou alguns prémios.

"Douro, Faina Fluvial", uma curta-metragem documental sobre a vida nas margens do rio Douro, foi o primeiro filme que Manoel de Oliveira rodou, então com 23 anos, com uma câmara oferecida pelo pai.

A estreia desse filme aconteceu a 19 de Setembro de 1931, no mesmo dia em que morreu Aurélio da Paz dos Reis, considerado o pai do cinema português.

Hoje o filme é largamente elogiado, mas na altura foi mal recebido pelo público, tal como "Aniki-Bobó", o seu primeiro filme de ficção, estreado em 1942.

Com uma longa-metragem e uma mão cheia de pequenos filmes, Manoel de Oliveira quase abandonou o cinema, por falta de apoios financeiros.

O silêncio, durante o qual se dedicou à lavoura e à reflexão sobre o cinema, como o próprio disse em entrevistas, durou até 1956, quando estreou a curta-metragem "O Pintor e a Cidade", o seu primeiro filme a cores.

A primeira grande conquista junto do público ocorreu na década de 1960 depois de "O Acto da Primavera", em 1962, ano em que foi detido pela PIDE, precisamente numa sessão pública de apresentação do filme, no Porto.

Foi também com "O Acto da Primavera" que Oliveira recebeu o Grande Prémio do Festival de Cinema de Siena, em Itália, em 1964. Um ano depois a Cinemateca Francesa rendeu-lhe uma homenagem com uma retrospectiva.

Nos anos 70 realizou a "tetralogia dos amores frustrados", com "O Passado e o Presente" (1971), "Benilde ou a Virgem Mãe" (1975), "Amor de Perdição" (1978) e "Francisca" (1981).

Em 1985, com 77 anos, recebeu o "Leão de Ouro" do Festival de Veneza, em Itália, e em 1989 foi condecorado pelo então Presidente da República, Mário Soares, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.

"Non, ou a Vã Glória de Mandar", uma visão sobre a identidade portuguesa a partir da revolução de 25 de Abril de 1974, abriu uma nova etapa na filmografia de Oliveira, que a partir de então realizou e estreou, em média, um filme por ano.

Entre eles estão o autobiográfico "Viagem ao Princípio do Mundo" (1997), com Marcelo Mastroianni, "Palavra e Utopia" (2000), sobre o Padre António Manuel Vieira, "Um Filme Falado" (2003), uma viagem pelo Mediterrâneo e pela civilização ocidental, e "Cristóvão Colombo - O Inigma" (2007).

Quase toda a obra de Oliveira faz também uma aproximação ao teatro, que o próprio reconheceu e sublinhou.

Fora do enquadramento da câmara, Manoel de Oliveira também experimentou a encenação de teatro, admitindo que a prática teatral estava muito ligada ao seu cinema.

Em 2008 festejou cem anos de vida rodeado de técnicos e atores, enquanto filmava em Lisboa "Singularidades de uma rapariga loura", e recebeu a Palma de Ouro de Carreira em Cannes, um prémio que se junta ao Leão de Ouro de carreira que Veneza lhe entregou em 2004.

O público português reconheceu-o como figura incontornável da cultura, mas o elogio nem sempre se traduziu em sucesso nas bilheteiras de cinema.

Houve quem lhe criticasse a ausência de direcção de actores e a repetição de fórmulas, mas são mais os elogios, pelo toque de genialidade, pela interpretação da História de Portugal, pela visão muito particular e sensível do cinema e do mundo, pela representação do cinema português no estrangeiro.

Em Dezembro, Manoel de Oliveira foi distinguido com a Legião de Honra francesa, por uma carreira que o embaixador francês em Portugal, Jean-François Blarel, descreveu como "fora do comum".

Na esfera privada, Manoel de Oliveira era casado, desde 1940, com Maria Isabel Brandão Carvalhais, de quem teve quatro filhos.

Manoel de Oliveira: A calma veloz


O cinema de Manoel de Oliveira era calmo num mundo veloz. O contrário do que ele prometia, enquanto jovem, fascinado pelo atletismo e pelo automobilismo, querendo sempre chegar mais alto e mais rápido.


Os filmes de Manoel de Oliveira nunca quiseram ser velozes: desejavam ter ritmo e este também poderia ser mais lento (como foi na fase inicial da sua carreira como cineasta) como mais rápido (como foi na última).

A sua longa carreira foi de uma calma veloz. Talvez estivesse já tudo num dos seus mais belos trabalhos: "Douro – Fauna Fluvial", de 1931, onde a veloz fúria destrutiva do rio Douro está imersa no trabalho ritmado da fauna. Os dois mundos de Manoel de Oliveira conviviam já aqui. Talvez ele, desde sempre, estivesse a antever a verdadeira modernidade deste século XXI: tudo o que é calmo é o moderno, tudo o que é veloz é retrógrado. E, ainda assim, até parece o contrário.

A sua morte aos 106 anos, uma longa marcha de um guerreiro que queria conquistar o tempo, deixou um vazio que será difícil de ocupar no frágil mundo do cinema português, onde sobram autores e falta uma indústria. Ele, afinal, era a ponte entre dois mundos políticos (nasceu na Monarquia, em 1908) e cinematográficos ("Douro – Fauna Fluvial" era do tempo dos filmes mudos e a preto e branco). Não há outro referente assim. Um criador que parecia ser imortal.

Agustina Bessa-Luís, a grande escritora, que tantas vezes Manoel de Oliveira adaptou para cinema ("Francisca", Party" ou "O Convento", por exemplo), escreveu um dia: "Fim – o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa". Ao longo dos anos o cineasta libertou-se do fim previsto para qualquer ser humano e criou uma vida sustentada em filmes que sobrevirão ao tempo.

Antes de falecer tinha, é claro, muitos projectos para concretizar. Ainda recentemente o seu 106º aniversário serviu para mostrar o seu último trabalho, a curta-metragem "O Velho do Restelo". Mas a sua convivência com Portugal nunca foi fácil: mais facilmente foi reconhecido lá fora do que aqui. Os seus filmes eram acusados de demasiado devotos da calma que não vendia nestes tempos em que as cenas têm de se suceder a um ritmo que tire o fôlego a todos os espectadores.

Mas Manoel de Oliveira persistiu. O que nunca serviu para uma reconciliação com o "establishment" nacional. Ainda há cerca de um ano ele dizia à revista "Cahiers du Cinema" que "em Portugal há uma grande indiferença pelo que já realizei". Nada de novo. E aí voltamos a "Douro – Faina Fluvial". Quando foi estreado em 1931 no Congresso Internacional de Críticos de Cinema, em Lisboa, parte da audiência portuguesa vaiou o filme, para espanto do autor Luigi Pirandello, que o tinha adorado. Nada mudou desde então: Manoel de Oliveira era tolerado, mas não saudado.

Só que, mostrando a solidez das suas convicções, ele continuou a filmar. Com orçamentos sonantes. Com bons actores estrangeiros. O seu filme póstumo, "Visita ou Memória e Confissões", filmado em 1982, e que é muito autobiográfico, poderá só agora ser visto, por vontade do realizador.

Talvez no fundo tudo se reconduza, entre a calma e a velocidade, a um simples jogo, a um pequeno piscar maroto para o espectador, que nas brincadeiras de crianças de "Aniki-Bobó" permitem perceber quem é o polícia e quem é o ladrão: "Aniki-bébé / Aniki-bóbó / Passarinho Tótó / Berimbau, Cavaquinho / Salomão, Sacristão / Tu és Polícia, Tu és Ladrão". O cinema é isto: um jogo de luzes e sombras. Agora foi o tempo do eclipse lunar. A câmara de filmar de Manoel de Oliveira deixou de registar a luz.

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