quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Dior e Eu

99 por cento de transpiração

JORGE MOURINHA  10/09/2015

Um documentário bem interessante sobre os bastidores da criação de moda

Dior e Eu é mais sobre os bastidores da criação do que sobre o glamour da moda

Um olhar menos atento poderá fazer pensar que o “eu” do título de Dior e Euse refere exclusivamente a uma pessoa: o estilista belga Raf Simons, escolhido em 2012 para tomar conta da alta costura da casa parisiense.

Na verdade, contudo, o documentarista francês Frédéric Tcheng está mais interessado em múltiplos “eus”: não apenas o director criativo como também as mestras, as costureiras, os modelos, toda a gente que contribui para o sucesso de uma colecção para lá daqueles que dão a cara.


Dior e Eu acompanha a montagem em tempo-recorde da primeira colecção de Simons na Dior, em 2012, mas é menos um documentário sobre o glamour da moda, e muito mais um filme sobre os bastidores da criação, os “99 por cento de transpiração” que já Edison dizia serem essenciais para o “um por cento de inspiração”, pontuado por citações retiradas das próprias memórias do costureiro (e lidas em off por um actor “a fingir” de Dior). É, infelizmente, nesse “diálogo” entre passado e presente que o filme de Frédéric Tcheng se perde um pouco — o “contra-relógio” da criação e montagem da colecção e a alternância entre pontos de vista chegam e sobram para tornar Dior e Eu um objecto bem mais interessante do que o tal olhar menos atento daria a entender.

Mas, se Shyamalan usa bem a found footage, a verdade é também que o primeiro grande êxito desse conceito foi contemporâneo da sua ascensão (o célebre Projecto Blair Witchestreado no mesmo ano de O Sexto Sentido), e o cineasta sempre lhe preferiu uma mise-en-scène muito mais tradicional. O facto de Shyamalan se “colar” a uma fórmula que Actividade Paranormal (2009) tornou central ao cinema de terror dos nossos dias — e de A Visita vir produzido por Jason Blum, que aquele filme tornou no actual produtor-chave do género — acaba por “denunciar” uma dimensão algo calculista no projecto. Até porque falta a A Visita a inteligência e a sensação de descoberta dos seus melhores filmes, sugerindo que Shyamalan está a “jogar o jogo” da indústria para recuperar o estatuto que já teve e que deixou escapar. O que daqui sai é, então, um bom filme de suspense, uma série B que prova que o cineasta continua a ter jeito e mão, mas que serve mais como “cartão-de-visita” do que como regresso à grande forma.


Título original:Dior and I
Género:Documentário
Classificação:M/12
Outros dados:FRA, 2014, Cores, 90 min.

Em Março de 2011, John Galliano é despedido da casa Dior, na sequência da divulgação de um vídeo em que afirma amar Adolf Hitler. A Dior atribui a decisão ao "comportamento particularmente odioso e às declarações feitas por si". Em Abril de 2012, depois de muita especulação, o sucessor de Galliano é finalmente anunciado: o eleito para o cargo de director artístico da casa parisiense é o belga Raf Simons. Segundo a imprensa especializada, as negociações entre Simons e a Dior aconteciam há meses. A notícia é recebida com surpresa, dado o contraste do seu estilo minimalista e de vanguarda em relação ao tom excêntrico e barroco tão característico de Galliano. Aproveitando este momento único em que Raf Simons dá os primeiros passos na Dior, o realizador Frédéric Tcheng pede acesso aos bastidores e, durante oito semanas consecutivas, documenta o processo de criação da primeira colecção de Simons. Da concepção ao desfile, revela-se um autêntico trabalho de amor e dedicação da equipa de colaboradores. A montagem das filmagens resultou num documentário que é, acima de qualquer outra coisa, uma homenagem a quem lá trabalha, muito especialmente às costureiras que conseguiram dar vida à extraordinária visão de Raf Simons.


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