quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Bando de Raparigas

Divas de subúrbio 
LUÍS MIGUEL OLIVEIRA 10/09/2015

Um filme que nunca deixa espaço para que apareça o risco, a ambiguidade, a traição à cartilha sociologicamente correcta.



Esta incursão pelo realismo de subúrbio tem como principal mérito ser animada por doses q.b. de energia e imaginação, nunca se comprazendo com a observação naturalista, nem com o realismo entendido como exibicionismo.


As “raparigas”, e sobretudo a protagonista, Karidja Touré, são mais do que convincentes, e a insolência muito segura de si que, de um modo geral, todas exibem chega para afastar os esteréotipos e fazer delas personagens credíveis. É um filme inteligente — mas a inteligência em excesso costuma trazer também uma auto-consciência que nem sempre se manifesta da maneira mais positiva. É isso, finalmente, que limita este Bando de Raparigas: a sua absoluta irrepreensibilidade sociológica, que puxa e toca todos os temas inerentes (da condição económica à condição sexual), num olhar “exemplar” que nunca deixa espaço para que apareça o risco, a ambiguidade, a traição à cartilha sociologicamente correcta.



Título original:Bande de Filles
Género:Drama
Outros dados:FRA, 2014, Cores, 112 min.

Marieme é uma adolescente que vive num bairro problemático dos subúrbios de Paris (França). Sente-se oprimida pela família, por um contexto social dominado pelo sexo masculino e pela falta de perspectivas de futuro. Quando conhece um "gang" de raparigas que se norteiam apenas pelas próprias vontades e não dão satisfações a ninguém, vê ali a sua grande hipótese de libertação. Para ser aceite no grupo, adopta uma nova identidade, muda de nome e deixa a escola. Com aquelas raparigas, a agora conhecida como Vic irá desenvolver a sua autoconfiança e encontrar o sentimento de pertença por que tanto ansiava. Mas também há-de descobrir que a liberdade que alcançou está longe de ser sinónimo de plena felicidade...
Apresentado em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, um drama que parte das dores e descobertas inerentes à adolescência para questionar estereótipos de raça, género e classe social. A realização é de Céline Sciamma (“Naissance des Pieuvres”, "Tomboy"), que também assina o argumento. O filme recebeu quatro nomeações para os Césares, incluindo na categoria de Actriz Revelação, pela interpretação de Karidja Touré, no papel de Marieme/Vic.

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